Archive for the ‘Coluna do Professor’ Category
ORIGEM DE DEZ EXPRESSÕES
1. Circulou na Internet uma explicação segundo a qual a sigla inglesa “OK” (okay), que é mundialmente conhecida como significando que algo vai bem, teria sua origem na Guerra da Secessão, nos Estados Unidos. Durante a guerra, quando os soldados voltavam para as bases sem nenhuma morte entre a tropa, escreviam numa placa “0 Killed” (nenhum morto), expressando sua grande satisfação. Daí teria surgido a sigla “OK”. Ocorre que essa não é a única tentativa de explicação da origem da sigla. Uma outra dessas explicações sugere que OK teria vindo da inversão de KO (knock out, isto é, “nocaute”): assim como KO, que originalmente designa a derrota do boxeador,que beija a lona, desmaiado, o seu oposto OK designaria a vitória. Mas é melhor crer num dicionário etimológico. Segundo T.F. Hoad, é O.K. “apparently formed on the initial letters of oll korrect, jocular alteration or dialectal pronunciation of all correct; also, initials of Old Kinderhook (near Albany), name of the birth Place of a Democratic candidate Martin Van Buren, used as a slogan.” (HOAD, T.F., ed. The concise Oxford dictionary of English Etymology. Oxford: Clarendon Press, 1986, s.v. O.K.) Em outras palavras, OK deve ter surgido possivelmente de “Oll Korrect”, alteração jocosa ou pronúncia dialetal de “all correct” (isto é, “tudo certo”), ou do nome Old Kinderhook, da localidade de nascimento de um candidato democrata, a qual era usada como slogan.
2. Os cavaleiros medievais usavam um elmo com viseira. Quando se preparavam para um combate singular, abaixavam a viseira. Quando não tinham intenção de lutar, erguiam a viseira, em sinal de amizade. O gesto de erguer a viseira em sinal de paz modificou-se com o tempo e transformou-se na continência militar. A viseira está também na origem da expressão portuguesa “estar de viseira caída”, encontradiça em Portugal, com o sentido de “estar zangado, sério, com cara de poucos amigos”.
3. Há uma crença popular segundo a qual o avestruz enfia a cabeça na areia para esconder-se do mundo. Na verdade, o avestruz enfia a cabeça na areia para comer pequenas pedras que lhe facilitam a digestão. Muitas aves, como os passarinhos, por exemplo, costumam comer pequenos grãos de areia ou pedrinhas exatamente por causa disso. Daí vem o ditado “Passarinho que come pedra conhece o traseiro que tem” (“Avicula quae petram est culum suum noscit.”).
4. O substantivo feminino francês “tringle” significa “gancho, escápula de açougue, vara de cortinado”, entre outros significados, inclusive o de “cabide de alfaiate”, segundo ensina Orlando Neves no seu Dicionário das origens das frases feitas (Porto: Lello & Irmãos,1992, s.v. “andar nos trinques”) . Os alfaiates antigos costumavam pendurar os ternos recém-feitos em escápulas a que chamavam “trinques”. Assim, só roupas novas e boas se punham nos trinques. Daí a expressão “estar ou andar nos trinques” para indicar que alguém está bem vestido.
5. Contrariamente ao que ensinam alguns professores, o símbolo etnossêmico dos Estados Unidos (um velho cabrinete com a cabeça coberta por uma cartola estrelada com as cores da bandeira americana) não se origina de nenhum Samuel, pretenso fornecedor de carne aos soldados americanos na guerra contra o México. Na verdade, o “tio Sam” se origina da antiga abreviatura da nação norte-americana: U.S.AM (United States of América). O povo desprezou o segundo ponto e entendeu que o U era abreviatura de Uncle (tio). De U.SAM surgiu “Uncle Sam”. Essa é a informação da Grande Enciclopédia Larousse Cultural (São Paulo: Círculo do Livro, 1988, vol. 26, s.v. Sam). O desenho do velho de cartola e cavanhaque surgiu posteriormente à interpretação truncada da abreviatura daquele país. Vale dizer: o nome surgiu antes da figura. Ignoro quem a teria desenhado.
6. A palavra esnobe (de “snob”), origina-se da expressão latina “sine nobilitate”, abreviada “s.nob”. Segundo José Ortega y Gasset, no livro A rebelião das massas (3.ed. Rio de Janeiro: Livro Ibero-Americano, 1971, p. 26, nota 5), “Na Inglaterra, as listas de residências indicavam junto a cada nome o ofício e classe da pessoa. Por isso, junto ao nome dos simples burgueses aparecia a abreviatura s. nob., quer dizer, sem nobreza. Essa é a origem da palavra snob” (grifos do autor).
7. Outro étimo popular é o de “larápio”, que se teria originado da rubrica L.A. R. Appius, de um pretor romano chamado Lucius Antonius Rufus Appius, que dava sentenças favoráveis a quem melhor lhe pagasse. Essa idéia, difundida por Artur Rezende e abonada por Antenor Nascentes (Dicionário etimológico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Acadêmica, Francisco Alves, São José, Livros de Portugal, depositários, 1955, s.v.), é refutada por José Pedro Machado (Dicionário etimológico da Língua Portuguesa. 2.ed. Lisboa: Confluência, 1967, s.v.), para quem não existem outros vestígios românicos desse antropônimo latino de aparência estranha. Na verdade, “larápio” teria vindo ou de “lar apium”, isto é, lar das abelhas ou estaria relacionado ao verbo rapio, rapis, rapui, raptum rapere, que significa tirar, subtrair, raptar. Para os autores do Dicionário Morfológico da Língua Portuguesa (São Leopoldo: Unisinos, 1984, s.v.), Evaldo Heckler, Sebald Back e Egon Massing, “lar” designava “espírito perseguidor”. Trata-se de uma analogia com o trabalho das abelhas que perseguem as flores roubando o néctar.
8. Um gramático aventou a hipótese de que “esfrangalhar” se originaria da palavra “frango”, porque o frango é estraçalhado ou reduzido a frangalhos à mesa das refeições. Nada mais falso. Frango é regressivo (forma derivada de outra por supressão de sufixo real ou aparente) de frangão, de origem obscura. No latim bárbaro, franganum documenta-se no séc. XIII, segundo José Pedro Machado (Op. cit.. s.v. frango), e, em português, no séc. XIV. O nome frango documenta-se no séc. XV. O Dicionário etimológico Nova Fronteira da língua portuguesa, de A. G. Cunha (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, s.v.), informa que “a forma frango proveio de frangão possivelmente por ter sido esta última considerada como aumentativo”.
Já frangalho e esfrangalhar se relacionam com o verbo latino frango, is, fregi, fractum, frangere, que significa “quebrar, partir, despedaçar”, raiz de vários alomorfes (isto é, de variantes de uma única forma), a qual aparece em palavras como: fragoso, franzir, fração, frágil, fragmento, fratura, franzino, infrator, refratário, infringir, náufrago (de nau-fragus, isto é, “que quebra o navio”), etc.
Essa raiz de frangere tem sua origem no gótico brikan, segundo o Dictionnaire étymologique de la langue latine, de Ernout & Meillet (Paris: Klincksieck, 1967, s.v.), que se relaciona com o português brecha e com o inglês break (segundo o Dicionário morfológico da língua portuguesa, de Evaldo Heckler et alii (Op. cit.. s.v. fraçã (sic) família 2281-200, vol. II). Em outras palavras, frango não tem absolutamente nada a ver com frangalho ou esfrangalhar.
9. Carnaval, para Dauzat, Dubois e Mitterand, autores do Nouveau Dictionnaire étymologique et historique (Paris: Larousse, 1964), se origina do italiano “carnevale”, alteração de “carneleva” (“afasta a carne”), forma ainda existente no dialeto de Gênova. O étimo “carne vale” (adeus, carne) é invenção popular.
10. Embora designe o demônio por um erro dos doutores da Igreja, Lúcifer, de origem latina, significa “o que leva (ferre) a luz (lux)”, equivalente ao termo “fósforo”, pelo étimo grego. Lúcifer passou a designar o demônio por causa da má interpretação de duas passagens de Isaías, cap. XIV, versículo 4, em que se fala do rei da Babilônia, e versículo 12, em que o rei caiu do céu e é chamado Lúcifer, tradução do hebraico ben-xabar (filho da aurora), designativo da estrela da manhã ou estrela dalva. Os doutores da Igreja viram semelhança entre o que Isaías dizia e a queda do anjo mau, na mitologia bíblica. E Lúcifer, apesar da etimologia, passou a designar o anjo mau, o primeiro Arcanjo. Vale dizer: se fosse boa conselheira, a etimologia permitiria chamar “Lúcifer” ao próprio Cristo, e não ao demônio, já que “lúcifer” significa, etimologicamente, “o que leva a luz”…
Pensemos nisso…
(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP e professor do curso de Mestrado em Linguística da Universidade Federal do Espírito Santo.


Os conceitos gramaticais de sujeito, predicado, adjuntos, etc. são termos metalinguísticos, que não podem ser dissociados da gramática, a menos que se queira fazer graça ou ironia. Toda ciência tem sua metalinguagem específica, muitas vezes distante do que ensinam os dicionários de língua, outra ciência ou a intuição popular. Roubar, furtar e assaltar podem ser sinônimos para a arraia-miúda, mas não o são para quem é versado em Direito. Embora sujeito e predicado sejam rótulos retirados da lógica (a análise sintática era chamada de análise lógica antes da promulgação da Nomenclatura Gramatical Brasileira), seus conceitos de tema e rema, respectivamente, se afastaram da lógica, uma vez que, numa oração como “São duas horas”, o sujeito zero não é previsto na filosofia, mas é a solução para a análise do termo “duas horas” como predicativo do sujeito.
Os dicionários de língua, frequentemente, se equivocam quando conceituam nomes da metalinguagem de alguma ciência, sem referência às obras técnicas específicas que utilizam esses nomes. O infixo, por exemplo, é uma palavra que, em linguística, rotula a flexão interna. Como os sufixos e desinências se acrescentam ao fim do radical; e o prefixo, ao início; o infixo se acrescenta no meio. Na língua indígena chontal, do México, por exemplo, o plural se forma com o acréscimo de um l mediovelar no meio da palavra: tuwa (estrangeiro) – tulwa (estrangeiros); akano (mulher) – akalno (mulheres), koñi (neto) – kolñi (netos). Poder-se-ia até mesmo chamar infixo à alternância vocálica interna na formação do plural de alguns nomes ingleses, como food/feed, foot/feet, por exemplo. Os radicais seriam morfemas descontínuos, f…d/ f…t, respectivamente, que seriam preenchidos por uma vogal alta posterior para marcar o singular e uma vogal alta anterior para marcar o plural. Mas não existe infixo em português. No caso de qualquer/quaisquer, o que se tem é o plural de um pronome variável que, por força de normas ortográficas nem sempre lógicas, se escreve junto de um verbo invariável numa palavra composta: qual + quer.
Mas os dicionários Aurélio (versões em papel e em CD) e Houaiss (versão em papel, porém não em CD) ensinam, inadequadamente, no verbete “infixo”, que, em “chaleira” (de chá + l + eira) ou motorneiro (de motor + n + eiro) , ou em cafezal (café + z + al) as consoantes l /n/z inseridas por eufonia (“consoantes de ligação”) entre o radical e o sufixo seriam infixos. Não existe infixo em português.
Para os dicionários Aurélio e Caldas Aulete, cacófato e cacofonia são sinônimos. Dicionários técnicos, no entanto, informam que cacofonia é antônimo de eufonia e designa encontro desagradável de sons, por negligência, como em: “mas não” (asnão), “A terra dos Algarves e já nela” (Os Lus. II, 41 e VIII, 25). Já cacófato provoca sensação de ridículo e não raro provoca sentido inconveniente, grosseiro ou descabido: “Ele tem pretensões acerca dela”. Veja-se o verbete “cacofonia”, por exemplo, no Dicionário de termos literários, de Massaud Moisés (São Paulo: Cultrix, 1978), em que é nítida a distinção entre cacófato e cacofonia. A própria definição de cacófato está inadequada ou incorreta no Aurélio que há muito deixou de ser uma obra confiável: “Som desagradável, ou palavra obscena, proveniente da união das sílabas finais de uma palavra com as iniciais da seguinte”. Ora, no exemplo dado (ele tem pretensões acerca dela), o cacófato (a ser cadela) é resultado do encontro de duas palavras inteiras (acerca e dela) e não do final de uma com o princípio de outra. Felizmente, o Houaiss, ao contrário do Aurélio, conceitua adequadamente cacófato e cacofonia.
É sempre bom confiar desconfiando, na consulta a um dicionário de língua, quando se trata de termos técnicos…
(*) José Augusto Carvalho é Mestre em Linguística pela Unicamp e Doutor em Letras pela USP.


Como a voz ativa e a voz passiva são quase sempre sinônimas, é fácil tomar uma pela outra às vezes, como faz o usuário da lingua, ao dizer *Afina-se pianos (por Afinam-se pianos) ou *É fácil fazer a lição quando se a sabe (por quando se sabe ela). Uma regra de concordância freqüentemente ignorada estipula que, sempre que numa oração existir o pronome se, seu sujeito será normalmente o primeiro substantivo ou pronome que aparecer sem preposição. Por isso, é impossível a ocorrência do pronome se com os pronomes pessoais o ou a. É inadmissível dizer O dinheiro é bom quando se o tem: o pronome sem preposição, de acordo com a regra acima, que aparece na oração com o se é o, que não pode ser o sujeito, porque é pronome pessoal típico de objeto direto. Corrija-se : O dinheiro é bom quando se tem (ele). Em Alugam-se pianos, o substantivo não preposicionado – pianos – é o sujeito. Por isso o verbo vai para o plural. Em Precisa-se de empregados, o substantivo está preposicionado, por isso o verbo fica no singular: o sujeito é indeterminado. Diz-se que o sujeito é indeterminado quando não tem núcleo, isto é, quando não existe pronome nem substantivo que exerça essa função explicitamente na oração.
Não precisamos recorrer aos clássicos para provar que não é por falsa concordância que o verbo concorda com o seu sujeito passivo nas construções com o se apassivador, mas pelo fato de o se indeterminador e o se apassivador serem duas realidades diferentes.
Recorramos à intuição, à moda dos gerativistas, e examinemos as frases seguintes:
l. Quanto ao gênero e ao sexo, trata-se de coisas diferentes 2. Desfolhou-se a árvore pela ação do vento.
Nenhum falante substituiria o se por a gente ou por alguém, no exemplo 1, embora seja patente a indeterminação do sujeito; e ninguém tampouco acharia que, no exemplo 2, a árvore se teria desfolhado, mas que ela foi desfolhada pela ação do vento. No exemplo 2, a significação passiva é óbvia demais.
Parece-me que a falta de concordância que se observa em frases como Alugam-se casas, na fala popular (*Aluga-se casas), se deve à inversão da ordem. Em frases como O chá e o café se derramaram sobre a mesa, o significado passivo é mais bem aceito pela intuição ou pela psicologia do falante do que em frases em que o sujeito aparece depois do verbo. Ninguém deixaria de reconhecer o sentido passivo em frases como: 3. Tu te operaste de um tumor no cérebro. 4. Nós nos batizamos quando tínhamos dois meses de vida. 5. Vós vos chamais Pedro.
Todos os estudos por mim examinados que confrontam o indeterminador e o apassivante em português ou não levam em conta o agente da passiva expresso, ou só levam em conta a 3ª pessoa se (à exceção do livro Sintaxe clássica portuguesa, de Cláudio Brandão). Na verdade, as outras pessoas também têm o seu pronome apassivador respectivo, como demonstram os exemplos 3, 4 e 5, acima transcritos. Pela própria definição de indeterminação do sujeito, o pronome indeterminador só pode ser da 3ª pessoa. Parece-me pouco esclarecedor que se atente de modo absoluto para a correspondência semântica das estruturas sintáticas. É verdade que entre Aluga-se esta casa e Esta casa é alugada, existem diferenças de significado (o aspecto de completitude, na construção com o verbo ser), cuja causa reside basicamente no emprego do tempo verbal. Qualquer falante da língua observa identidade semântica entre Venderam-se poucos livros na feira e Poucos livros foram vendidos na feira. Talvez se deva falar em “gradação semântica” dos tempos verbais na correspondência entre a voz passiva analítica e a voz passiva sintética, com o se apassivador, ou entre as duas passivas e a voz ativa equivalente.
(*) José Augusto Carvalho é mestre em linguística pela Unicamp e doutor em letras pela USP.

A idéia da voz depoente parece-me solução adequada para explicar, graças às suas características de uma voz diferente, a impossibilidade de transformação passiva de frases como Antônio levou um soco, em que o verbo parece estar na voz ativa, com objeto direto, mas o sujeito é paciente. No inglês clássico, é possível voz passiva com objeto direto: I was stolen a pencil by him (literalmente: “Eu fui roubado um lápis por ele”). Em redações escolares, é possível encontrar voz passiva construída equivocadamente com objeto direto, como no exemplo seguinte: “O professor foi indagado pelos alunos se podia liberar a turma mais cedo”.
É interessante lembrar ou relembrar que a voz passiva não é necessariamente sinônima da voz ativa correspondente. Há casos em que a voz passiva é semanticamente distinta da voz ativa, contrariando a idéia de que aquela é apenas uma transformação desta. Uma frase como “A cidade viu Tancredo doente” tem sentido diferente do da sua correspondente passiva: “Tancredo foi visto doente pela cidade”, em que o sujeito metonímico da ativa se confunde com um adjunto adverbial de lugar, na passiva. A frase “Eu tirei esta foto” pode ser interpretada assim: “Posei para esta fotografia” ou “Eu fui o fotógrafo responsável por esta fotografia”. Mas a voz passiva correspondente – Esta foto foi tirada por mim – só tem uma interpretação possível: a de que eu fui o responsável pela foto, isto é, a de que fui o fotógrafo. A frase “Um só aluno não fez o dever” não diz o mesmo que “O dever não foi feito por um só aluno”.
A solução ideal seria considerar a voz passiva não como uma transformação da ativa (e ainda menos como uma espécie de advérbio de modo da voz ativa, explicação tentada por gerativistas), mas como uma construção paralela morfologicamente semelhante à voz ativa. A semelhança morfológica (mesmos itens lexicais) permite a conversão de uma em outra, mesmo que o sentido seja diferente. Assim, seria desnecessário, por não-pertinente, explicar a não-correspondência semântica que às vezes se observa entre as duas construções.
Só existem dois tipos de voz passiva: a analítica, construída com o verbo ser auxiliar, como em “A rosa foi vista por José”, e a sintética, construída com o pronome apassivador, como em “Viu-se a rosa”. Uns poucos gramáticos mais ousados, confundindo análise semântica com análise sintática, apresentam, equivocadamente, um terceiro tipo de voz passiva: a de infinitivo, como na frase “osso duro de roer”, pretensamente passiva, porque pode ser parafraseada em “osso duro de ser roído”. Ora, nos predicados adjetivais desse tipo (difícil de fazer, duro de roer, fácil de ler, ruim de dizer, etc.), a voz é ativa; pressupõe a existência de um sujeito ativo: osso duro de alguém roer, livro fácil de alguém ler, trabalho difícil de alguém fazer, etc. Por isso é possível dizer: coisas difíceis de fazer (voz ativa), coisas difíceis de se fazerem (voz passiva sintética) e coisas difíceis de serem feitas (voz passiva analítica).
Em frases como “dar a mão a beijar”, a idéia é ainda de voz ativa: dar a mão para alguém beijar, dar a mão a alguém que a beije. Raciocinar com comutações sintáticas é deixar-se enganar pela semântica. A comutação, isto é, a troca de um elemento por outro para verificar se o sentido permanece ou não o mesmo, funciona adequadamente na fonologia, mas fracassa na sintaxe. Por exemplo: pode-se dizer “de tarde”, “de noite”, “de manhã”. Mas, se se pode dizer “à tarde” e “à noite”, não se pode dizer *”à manhã”. A comutação não funciona. (Conclui na próxima semana.)
(*) José Augusto Carvalho é mestre em linguística pela Unicamp e doutor em letras pela USP.


Voz é a forma com que o verbo se apresenta para indicar a relação entre ele e o sujeito.
As vozes verbais constituem um assunto difícil que nossas gramáticas nem sempre analisam com a devida profundidade. A rigor, só os verbos transitivos diretos ou os adequadamente chamados bitransitivos (na antiga nomenclatura) podem ter voz ativa, passiva ou reflexiva, pela Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB). Em frases como José saiu, Antônio foi ao Rio ou Preciso de dinheiro e quejandas, os verbos estariam no que se deveria chamar de voz medial, de que também é exemplo a voz reflexiva, mas seria uma solução conveniente para a análise de frases como José morreu, em que o sujeito, na verdade, é paciente, e seria, como é, disparate falar em voz ativa. Falar em “passividade” em casos como Carlos levou um tiro para justificar que se trata de voz ativa e não de outro tipo de voz, como veremos oportunamente, é escamotear o problema, e não resolvê-lo. Vale dizer: Pela NGB em vigor, uma frase como Ele caiu não estaria em voz nenhuma.
As gramáticas que estudam a diátese (voz verbal) levam em conta apenas as vozes ativa, passiva e reflexiva. Mas há, ainda, a voz medial (de que a reflexiva pode ser um exemplo, embora não único) e uma quinta espécie de voz, que os estudiosos de latim conhecem bem, posto que nem sempre com essa classificação de voz: a depoente. Um verbo latino se chama depoente quando tem forma passiva e significado ativo, como sequor, sequeris, secutus sum, sequi (“seguir”). São semidepoentes os verbos que têm forma ativa no sistema do infectum (conjunto dos tempos de ação incompleta, como os presentes e imperfeitos) e forma passiva no sistema do perfectum (conjunto dos tempos de ação completa, como os perfeitos e mais-que-perfeitos), como fido, es, fisus sum, fidere (“fiar-se”). Há autores que, com alguma razão, consideram depoentes construções portuguesas com o particípio, como Ele chegou aqui almoçado. Ele é um homem lido. “Porém já cinco Sóis eram passados”(Os Lus. V, 37).
Em português, há um tipo diferente de verbo depoente, com forma ativa e significado passivo. Trata-se de verbos transitivos diretos com objeto direto, mas com sujeito paciente, como em José levou um tiro, Carlos ganhou um tapa, Jorge pegou sarampo, Antônio recebeu um soco, etc. Embora teoricamente se possa transformar na voz passiva os verbos que tenham objeto direto, o significado passivo das frases acima impede esse tipo de transformação. Falar em “passividade” não resolve casos em que, embora o sujeito seja agente, a ação verbal recai sobre ele, como se a voz fosse reflexiva (mas é voz medial) sem o pronome adequado tornando impossível a transformação passiva, como em “José pesa apenas trinta quilos.” Ou como em: “Carlos perdeu o ônibus.”
A gramática gerativa, na teoria padrão, considerava a voz passiva uma simples transformação facultativa da voz ativa. Ora, a diátese é uma categoria gramatical, realizada no verbo, que indica se o sujeito é ou não exterior ao processo ou à ação verbal. Historicamente, a voz passiva se origina não da voz ativa, mas da voz dita medial, que se realiza ora com verbo transitivo que coocorra com um pronome reflexivo (Ele se feriu) ou com objeto duplo em que o sujeito (agente) exerce a ação sobre um objeto distinto, mas em seu benefício (Ele se deu esse luxo), ora com verbo intransitivo cujo sujeito não é necessariamente o agente da ação ou do processo (A montanha tremeu).
(Continua na próxima semana.)
(*) José Augusto Carvalho é mestre em linguística pela Unicamp e doutor em letras pela USP.
UMA PALAVRA NO LUGAR DE OUTRA
Há uma construção sintática que, às vezes, parece o samba do crioulo doido. É a hipálage.
Os dicionários definem a hipálage como um expediente retórico segundo o qual uma palavra ocupa numa frase o lugar que convém logicamente a outra que com ela mantém um vínculo semântico e gramatical. Por exemplo: ao falar, em Os Lus. X, 2, em “abundantes mesas de altos manjares”, Camões quer dizer, retoricamente, “abundantes manjares de altas mesas”. Quando fala em “apetite necrófago da mosca”, Augusto dos Anjos, no poema “Cismas do destino”, parte II, quer dizer que a mosca é que é necrófaga, e não o apetite. No Hino Nacional, há um verso que diz “ao som do mar e à luz do céu profundo”. Na verdade, não é o céu que é profundo, mas o mar. Afinal, a profundidade é a verticalidade para baixo (o mar) e não para cima (o céu). O autor desse verso, Osório Duque Estrada, realizou uma hipálage: o adjetivo que deveria determinar um substantivo acabou determinando outro.
A hipálage é um processo psíquico, como a sinestesia. A sinestesia é a correspondência entre sentidos ou sensações diferentes, como “música doce”, por exemplo, em que a sensação acústica – música – se associa a uma sensação gustativa – doce. É por sinestesia que falamos em “voz grossa” ou que atribuímos idéia de coisa “gorda” a uma palavra como “maluma”, ou damos cores (verbocromia) a determinados sons, como o negrume ao u (fúnebre, túmulo, catacumba, urubu), e a clareza ao a (claro, raro, preclaro…) A hipálage, no entanto, é mais complexa que a correspondência sinestésica de sensações, e não raro diz respeito à sintaxe e não apenas à semântica. É por hipálage que dizemos que o sapato não entra no pé (na verdade, é o pé que não entra no sapato). Também por hipálage, a moça que engordou diz que determinado vestido não cabe mais nela (na verdade, é ela que não cabe mais no vestido).
Não é apenas o deslocamento de um nome ou de um verbo que produz a hipálage; a permuta de casos e de funções sintáticas também pode caracterizá-la. Assim, uma expressão aparentemente errada, como “dar a luz a uma criança” (por “dar à luz uma criança”) pode ser adequadamente justificada como uma hipálage popular. Tanto faz, portanto, dizer que o bebê foi dado à luz, quanto dizer que a luz foi dada ao bebê… A preferência que as gramáticas dão a uma das expressões (“dar à luz um bebê”) não justifica a condenação da outra (“dar a luz a um bebê”).
ão se confunda o uso de verbos causativos com a hipálage. Quando se diz que “cigarro emagrece”, o verbo “emagrecer” está no sentido causativo, registrado nos dicionários, isto é, “emagrece” significa não apenas “fica mais magro”, mas também “faz emagrecer”. Da mesma forma, em “massas engordam”, “engordam” significa “fazem engordar”.
Há exemplos “carnavalescos” de hipálage na sintaxe popular, observáveis até mesmo na fala de pessoas cultas. Quando diz que “meu carro furou o pneu”, o falante não quer dizer que seu carro tenha realmente furado o próprio pneu… Quando dizemos que “Pedro quebrou o braço ao cair”, não estamos querendo dizer que Pedro foi o autor da própria fratura… Quando se diz que “o tanque vazou o óleo todo”, não se quer dizer que foi o tanque o autor da façanha… Outros exemplos: Cafu fez três cirurgias (foi o médico quem as fez). O jogador operou o septo nasal (foi o médico dele que operou).
Embora já se tenha falado nessas construções sintáticas em trabalhos lingüísticos sobre topicalização (como o livro de Eunice Pontes, Sujeito: da sintaxe ao discurso. São Paulo: Ática/INL, 1986) não me consta que exista algum estudo específico de psicolingüística exclusivamente sobre a hipálage.
É pena.
(*) José Augusto Carvalho é mestre em linguística pela Unicamp e doutor em letras pela USP.
A PROPÓSITO
DOMINGO, 20 DE SETEMBRO DE 2009
CONDENAÇÃO
Roldão Simas Filho envia-me cópia em português atual de um documento curioso do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, que reproduzo: “Sentença proferida em 1487 no processo contra o prior de Trancoso – autos arquivados na Torre do Tombo, Armário 5, maço 7”: “Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos; de cinco irmãs teve dezoito filhas; de nove comadres, trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas; da própria mãe teve dois filhos. Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos e catorze do sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido em cinquenta e três mulheres. El-Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou pôr em liberdade aos dezassete dias do mês de março de 1487, com o fundamento de ajudar a povoar aquela região da Beira Alta, tão despovoada ao tempo, e guardar no Real Arquivo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o processo.” Roldão pergunta o que penso disso. Só posso registrar minha admiração não só pelo padre, por seu vigor, mas também pelo Rei, por sua visão…
(*) José Augusto Carvalho é Mestre em Linguística pela Unicamp e Doutor em Letras pela USP.
O ARTIGO – GÊNERO E CONCORDÂNCIA

Bons gramáticos, como Celso Cunha e Lindley Cintra (Nova gramática do português contemporâneo) e Rocha Lima (Gramática normativa da língua portuguesa) afirmam que o nome próprio oriundo de um nome comum se constrói com o artigo: o Porto, o Cairo (de El-Kahira, a vitoriosa), o Rio de Janeiro, o Havre (que significa “o porto”). O problema é que todos os nomes próprios (de lugar ou de pessoa) de alguma forma se originaram de adjetivos ou de nomes comuns, como Cláudio (o capenga; daí vem o verbo “claudicar”), Honório (que recebe honras), Ricardo (príncipe forte), Lituânia (terra chuvosa), Sagres (sagrado), etc. Muitos nomes de lugar no ES vêm de nomes comuns e se usam sem artigo: Vitória, Castelo, Cachoeiro, Guarapari (“curral das garças”), etc.
As gramáticas são omissas quanto ao gênero de substantivos que se tornaram próprios no plural e que, portanto, perderam a idéia de pluralidade. Alagoas, por exemplo, pode ser usado facultativamente com o artigo feminino (as Alagoas), mas Amazonas só admite o artigo masculino, que Drummond usa no plural, no poema “Hino Nacional”, do livro Brejo das Almas (p. 45 da edição de suas obras completas – Poesia e Prosa __,da Ed. Aguilar, de 1988, de onde tiro todos os exemplos; o número entre parênteses, após cada citação, indica a página em que o exemplo se encontra).
Não é a origem feminina do nome que determina o uso do artigo ou de um adjetivo no feminino. Belo Horizonte, embora masculino na origem, é feminino como nome próprio: a desprevenida Belô (p. 718; note-se o hiperbibasmo do tipo diástole, isto é, o deslocamento para a frente do acento tônico de “Belo”). Não se pode dizer que está subentendida a palavra “cidade”, porque em “Minas orgulhosa” (431), ou em “pura Minas” (711), por exemplo, não está subentendida a palavra “estado”. Além disso, só há elipse quando o termo subentendido pode ser recuperado no texto ou contexto anterior (por anáfora), o que elimina a possibilidade de se chamar “elíptico” ao sujeito de uma oração em que se suprimiu o pronome reto, como em “Vamos embora”, por exemplo, já que “eu”, (“nós”) ou “tu” (“você”, “vós”, “vocês”) são pronomes exofóricos, isto é, são dêiticos, que remetem sua significação a agentes fora do texto, à situação do discurso.
Não há razão específica para que Londres seja do gênero feminino, e Paris seja do gênero masculino. Não há razão para que Alagoas possa ter diante de si o artigo feminino plural, e não o singular, como o Amazonas. Nem há razão para que nomes como Ásia, Holanda, Europa, França, Espanha, Inglaterra e África (que formam a frase mnemônica “Ah, é feia!”) sejam articulados facultativamente. Drummond escreve “Europa” sem artigo: “Cai neve em Parnaíba (…) seus filhos que jamais viram Europa” (784). Rui Barbosa escreveu “Inglaterra”, sem artigo, no título de seu livro de 1896: Cartas de Inglaterra.
Uma coisa é certa: há nomes que rejeitam obrigatoriamente o artigo, exceto quando seguidos ou precedidos de outro(s) determinante(s), como Portugal, Lisboa, Paris, Cabo Verde, Salvador e outros; há os que podem ser precedidos ou não, facultativamente, do artigo, como (o) Recife, (o) Marrocos, (a) Serra e os nomes que formam o acrônimo “Ah, é feia!”, acima citado; e há os que exigem obrigatoriamente o artigo, como Estados Unidos, Brasil, Rússia (exceto nas enumerações, como aqui, ou em manchetes de Jornal). Assim, uma frase como “Estados Unidos invadem o Iraque” é admissível como manchete de periódico, em que a ausência do artigo se permite talvez por economia de espaço; mas a concordância verbal se faz como se o artigo estivesse lá, isto é, a ausência eventual do artigo diante de nomes próprios que o exigem não implica mudança nas regras de concordância. Em títulos, contudo, a concordância verbal se faz com o artigo: “Os Sertões constituem uma obra-prima de Euclides da Cunha.” Se o título não tem artigo, a concordância se faz no singular: “Locuções tradicionais do Brasil, de Câmara Cascudo, presta bons serviços ao estudioso.” Se o título original tem artigo, não se deve suprimi-lo nunca. Euclides da Cunha escreveu Os Sertões, e não “Sertões”; Luís de Camões escreveu Os Lusíadas e não “Lusíadas”. A concordância verbal no singular com títulos articulados no plural só é admissível com o verbo “ser”, se o predicativo é singular: “Os Lusíadas (são) é um belo poema.”
O artigo pode usar-se facultativamente diante de nomes próprios de pessoas e diante de possessivo, mas é omitido obrigatoriamente diante de vocativo, de demonstrativo ou de pronome de tratamento formado por possessivo + substantivo abstrato, incluindo você. É por não ser articulado o vocativo que fica estranha a frase “Vinde a mim as criancinhas”, que encerra a letra de uma música popular antiga. O correto seria “Vinde a mim, criancinhas” ou “Venham a mim as criancinhas”. O artigo definido e os pronomes pessoais de 3ª pessoa originaram-se do demonstrativo latino ille, illa, illud. Já por isso o artigo definido e o demonstrativo se excluem mutuamente, isto é, não podem coocorrer diante do mesmo nome.
Quando há elipse nominal, um elemento periférico (adjunto) passa a exercer a função de núcleo. Assim, em “Vejo ali duas senhoras: a da esquerda é recém-casada”, o “a” é artigo definido e não pronome demonstrativo; a locução “da esquerda”, originalmente adjetiva, passou a ser substantiva, ao tornar-se núcleo do sintagma em que houve elipse. Demonstremos: em “Comprei a camisa de duas cores; e ele comprou a de bolinhas”, se é possível dizer “ele comprou aquela de bolinhas”, também é possível dizer “ele comprou UMA de bolinhas”, e seria absurdo dizer que “uma” é pronome demonstrativo. Em “Ele gosta de camisas azuis, mas eu prefiro as brancas”, “brancas” assume a função nuclear, graças à omissão do substantivo “camisas”, recuperável por anáfora. Ora, se, na frase “Vejo duas senhoras: a da esquerda é recém-casada”, o “a” fosse demonstrativo, também seria o “as” de “as brancas”, na elipse citada. A identidade semântica entre “a” e “aquela” nas frases em análise não implica identidade sintática ou funcional, e ainda menos gramatical.
Da mesma forma, o “a” ou o “o”, complemento verbal, é pronome pessoal e não demonstrativo, embora semanticamente se identifique com ele em: “Que ele era bobo, eu já o sabia”. Esse “o” equivale a “isso”, mas é um pronome pessoal, ainda que se possa dizer que se trata de um pronome pessoal “neutro”, nunca de um demonstrativo. Cf. fr.: “Qu’il était dingo, je LE savais déjà”, em que se usa o pronome pessoal, e não o demonstrativo. Quando o “o” substitui um adjetivo em função predicativa, também é “neutro”: “Eles são felizes, mas eu não o sou”, porque o “o” predicativo não tem o mesmo estatuto do “o” pronome objetivo. A uma mulher a quem se pergunta se é professora, poderá responder “Eu o sou”, nunca “Eu a sou”. Já o pronome pessoal “o” concorda com o seu referente: “Ela chegou tarde, por isso não a vi entrar”. Na frase “Que ele era louco, eu já o sabia”, esse “o” substitui pleonasticamente a oração anterior, por isso está no masculino, que é a ausência de gênero. O “o” ou “a” só é demonstrativo diante de pronome relativo: “Das mulheres, ela é a que eu mais amo”. Ainda que se possa pensar em elipse da palavra “mulher”, o artigo não pode exercer função nuclear. O antecedente de um pronome relativo é sempre um substantivo ou um pronome (um sintagma nominal).
É improcedente, portanto, aludir à semelhança de formas ou à identidade semântica para justificar uma pretensa identidade de funções.
(*) José Augusto Carvalho é Mestre em Linguística pela Unicamp e Doutor em Letras pela USP.
CONCORDÂNCIA DO VERBO SER

Na concordância do verbo ser devemos considerar basicamente a seguinte hierarquia: a) o pronome pessoal prevalece sobre qualquer classe de palavra; b) o substantivo referente a pessoas, próprio ou comum, prevalece sobre os outros; c) o plural prevalece sobre o singular e sobre os seguintes pronomes sujeitos: quem, tudo, isto, isso, aquilo, o. Se, contudo, houver dois pronomes pessoais, o pronome sujeito predomina na concordância (Ex.: “Você não é eu, e eu não sou você”.). Eis alguns exemplos que ilustram a hierarquia acima: Os donos da fazenda somos nós. Minha filha é os meus mimos. Esta menina é as esperanças da escola. Chico Anísio é os personagens dele. O Brasil são os brasileiros. O telhado eram palhas secas.
Obs.: Se o predicativo for parte do corpo, também é possível fazer a concordância com ele: Maria é dois olhinhos azuis. Maria são dois olhinhos azuis.
Se o sujeito for o pronome quem, a concordância se fará com o predicativo, conforme vimos: Quem são os interessados no negócio?
Se o predicativo forem as expressões pouco, muito, bastante, demais, dando idéia de quantidade, a concordância se fará no singular Ex: Um é pouco, dois é bom, três é demais. Dez reais é pouco para comprar uma casa. Cinquenta quilômetros é muito para uma maratona. Três colheres de sopa já é bastante para matar a fome dele.
Obs.: Com o adjetivo suficiente funcionando como predicativo, o verbo poderá ir para o singular ou para o plural, dependendo da flexão desse adjetivo. Ex;: Cem reais é suficiente para o que ele quer comprar. Três livros são suficientes para meu lazer de uma semana.
O verbo ser relacionado a expressões ou a idéias de tempo, distância e medida concorda com o numeral: É uma hora. Daqui até minha casa são vinte quilômetros.
Na acepção de tempo, aparecendo as expressões perto de, cerca de, pode-se usar o singular ou o plural. Ex.: Era perto de duas horas. Eram cerca de duas horas. Nas datas, a concordância deve fazer-se com o numeral se a palavra dia não estiver expressa (há um equívoco oriundo de uma lição do livro de 1961, Manual de Expressão Oral e Escrita, de Mattoso Câmara Júnior, renegada por ele mesmo, posteriormente, na segunda edição, mas generalizada entre gramáticos que pressupõem indevidamente a elipse da palavra dia e admitem a concordância tanto no singular quanto no plural): Hoje é dia 15. Hoje são 15. (É incorreto, portanto, dizer-se “Hoje é 15”.Cf. BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37.ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 1999, p. 558)
A expressão de realce é que é invariável se os elementos que a formam estão juntos; se estiverem separados, a concordância se fará normalmente, segundo as regras gramaticais. Ex.: “As rosas é que são belas./ Os espinhos é que picam. / Mas são as rosas que caem./ São os espinhos que ficam.”
Com títulos articulados ou nomes de países com artigo, a concordância do verbo ser se faz com o artigo. Admite-se, segundo Evanildo Bechara (Moderna gramática portuguesa. 37.ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 1999. p. 564-5), a concordância com o predicativo no singular só com títulos. Ex.: Os Lusíadas são (é) um belo poema. Os Estados Unidos são um país poderoso. Se o verbo do predicado não for o verbo ser, a concordância se fará obrigatoriamente com o artigo dos títulos: Os Sertões contam (plural) o episódio histórico de Canudos.
(*) José Augusto Carvalho é Mestre em Linguística pela Unicamp e Doutor em Letras pela USP.
ANÁLISE DE TRÊS EXPRESSÕES
1. Correr atrás do prejuízo – Não poucos gramáticos se têm dedicado a atacar essa expressão, acreditando que “correr atrás do prejuízo” só pode significar a intenção de alcançar o prejuízo ou almejá-lo.
“Ir ao encalço de” ou “ir à procura de”, com o objetivo de alcançar, é apenas um dos sentidos da expressão “correr atrás de”, como está no Aurélio, no verbete “atrás”. Esse é o sentido usual, digamos “normativo”, da expressão.
O Dicionário de expressões populares portuguesas, de Guilherme Augusto Simões (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1993), o Novo Dicionário da gíria brasileira, de Manuel Viotti (3.ed. Rio de Janeiro, Tupã, 1957), e o Tesouro da fraseologia brasileira, de Antenor Nascentes (3.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986), são omissos, porque a expressão é recente e se teria originado da gíria esportiva.
Se uma pessoa que está em segundo lugar pretende vencer uma corrida, tem de correr atrás de quem está em primeiro lugar, não para alcançá-lo, mas para ultrapassá-lo. Da mesma forma, quem corre atrás de um prejuízo não pretende alcançá-lo, por já estar em desvantagem, mas ultrapassá-lo ou vencê-lo.
As gírias, freqüentemente, expressam até mesmo o contrário do que dizem seus termos, numa leitura normativa. Assim, “entrar bem” significa “sair-se mal”; “entrar pelo cano” não significa “ficar dentro de uma tubulação”; “dar um tapa”, na gíria do futebol, não significa “dar uma bofetada na bola”, mas chutá-la com pouca força, como se fosse um tapinha e não um pontapé. Analisar a gíria com visão denotativa ou normativa é desconhecer o fato de que gíria é uma linguagem especial. Basta ler o glossário do maravilhoso livro Desabrigo e outros trecos, de Antônio Fraga (3.ed. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999), para verificar que a gíria tem sua lógica própria.
Se o leitor disser “correr atrás do prejuízo”, estará usando acertadamente uma expressão da gíria brasileira. A gíria não tem a obrigação de seguir padrões normativos.
2. Risco de vida / risco de morte – Muita gente pensa que é incorreto dizer “risco de vida”, uma vez que o risco é que leva ou pode levar à morte.
O raciocínio é unilateral. Não leva em conta um fato sintático: em “risco de vida”, o termo “de vida” é complemento nominal de “risco”, isto é, se “risco” fosse verbo, “de vida” seria objeto. “Arrisco a vida” significa “ponho a vida em risco”, “assumo risco de vida”.
A expressão “risco de morte” também é correta, e leva em conta outro fato sintático: em “risco de morte”, “de morte” é uma locução adjetiva que aí exerce função de adjunto adnominal, isto é, “de morte” significa “mortal”. “Risco de morte” é sinônimo de “risco mortal”.
Portanto ambas as expressões são absolutamente corretas: risco de vida (“de vida” é complemento nominal de “risco”) e risco de morte (“de morte” é adjunto adnominal de “risco”).
Um reforço no estudo da análise sintática seria importante para um melhor entendimento de questões como essas.
3. A olhos vistos – Construção clássica da língua que se explica pela voz depoente: o particípio parece indicar que o verbo está na voz passiva, mas o significado é ativo: a olhos que vêem. Ex.: “O menino crescia a olhos vistos.” O mesmo caso de voz depoente ocorre em “homem lido” (que lê), “Ele chegou aqui almoçado” (ele almoçou), etc. Falta um estudo mais profundo da diátese (vozes verbais) nas nossas gramáticas…
(*) José Augusto Carvalho é Mestre em Linguística pela Unicamp e Doutor em Letras pela USP.
A ORIGEM DA PALAVRA ‘BURRO’

Um item lexical que tem recebido explicações etimológicas populares é a palavra burro.
Segundo José Pedro Machado (Dicionário etimológico da língua portuguesa. 2.ed. Lisboa: Confluência, 1967, s.v.), o nome burro, para o animal, se origina do nome latino burrus, que designa a cor ruça ou encarnada. E acrescenta que “em Portugal, o burro é vulgar e freqüentemente denominado “ruço”.” Mas parece que não é exatamente essa a explicação adequada.
Existem histórias curiosas a respeito da origem dessa palavra. Uma delas sugere que burro, significando pessoa pouco inteligente, tenha vindo do nome latino da cor vermelha burrus, porque os dicionários tinham antigamente a capa vermelha. Como aquele que os consultava era ignorante ou burro, o nome da cor do livro, por metonímia, teria passado a designar o consulente e, por extensão, teria passado a designar todo aquele que fosse curto de inteligência.
Em Aventuras de um caçador de palavras (Rio de Janeiro: Acadêmica, 1965, p. 48-51), Aires da Mata Machado Filho, no estudo “Origem da palavra burro”, procura explicar como a palavra burro adquiriu a acepção escolar de “tradução literal de autor clássico para uso dos estudantes”, e refere-se também à crença greco-latina na estupidez do burro. Não é do burro, o livro facilitado, nem do sinônimo de “pouco inteligente” que venho falar aqui. Nem eu teria competência para acrescentar algo ao estudo sério do escritor mineiro. Nem mesmo pretendo falar da expressão “cor de burro quando foge”, que Castro Lopes acredita ser corruptela de “corre de burro quando foge”, num estudo incluído às páginas 249-250, do seu Origens de anexins (2. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1909). Afinal, argumenta Castro Lopes, burro não apresenta nenhuma cor especial quando se põe em fuga. É possível contudo que a expressão “cor de burro quando foge” se refira à cor vermelha que um fujão possa apresentar (a etimologia explicaria a expressão).
Burrus é adjetivo de primeira classe em latim. Os adjetivos latinos de primeira classe têm declinações e formas distintas para cada um dos três gêneros: o masculino (em –us) e o neutro (em –um) seguem a segunda declinação, e o feminino (em –a) segue a primeira declinação. Assim, burrus tinha três formas: burrus (masculino), burra (feminino) e burrum (neutro). Segundo Ernout & Meillet (Dictionnaire étymologique de la langue latine, Paris: Klincksieck, 1967, s.v.), burro origina-se do grego pyrrós, e designa a cor ruiva. De burrus – dizem esses autores – deriva um adjetivo burranicus, substantivado, atestado pelo gramático Pompeius Festus (séc. II d.C).
A palavra francesa bourrique, para designar o asno, origina-se do espanhol borrico, pelo latim popular *burricus, alteração, por cruzamento, de burrus (ruivo) ou burra (crina) com buricus (pequeno cavalo), segundo Bloch & Wartburg (Dictionnaire étymologique de la langue française. 6.ed. Paris: Presses Universitaires de France, 1975, s.v.). Também há em francês bourricot e bourriquet.
Borrico, segundo Corominas (Diccionario crítico etimologico de la lengua castellana. Madrid: Gredos, 1976, s.v.), se origina do latim tardio *burricus (cavalo pequeno). O dicionário de latim de Lewis & Short (A latin dictionary. Oxford: Clarendon Press, 1975, s.v. burricus) registra burricus ou buricus, com a indicação de que a palavra foi usada por Varrão, Paulinus Nolanus e Vegetuis Renatus, com o sentido de “pequeno cavalo”.
Burro só pode ser, portanto, uma derivação regressiva de burricus, em português. Confirma-o o Dicionário etimológico da língua portuguesa (Rio de Janeiro: Acadêmica, Francisco Alves, São José, Livros de Portugal – depositários, 1955, s.v.), de Antenor Nascentes, que rejeita, citando Diez, “a aproximação com o lat. burrus, ruivo(…)”.
A forma hipotética *buricus, registrada no citado dicionário de Ernout & Meillet, é palavra do latim vulgar, sinônima de mannus, designação dialetal de pônei, poldro ou potro.
Do adjetivo burrus, ruivo, temos o português borro (designativo do carneiro entre um e dois anos) e borracho (que designa o pombo sem penas, por sua coloração avermelhada). E possivelmente borrega (ovelha de um ano). Talvez não mais que isso. Infelizmente… para os que dão asas à imaginação, formulando histórias bonitas para suas etimologias populares.
(*) José Augusto Carvalho é Mestre em Linguística pela Unicamp e Doutor em Letras pela USP.
COLONIALISMO CULTURAL
Não sou purista, mas há certos vícios lingüísticos que devem ser evitados, não por serem erros e ainda menos por serem vícios, mas por serem uma forma de subserviência à dominação cultural estrangeira, uma forma de colonialismo cultural.
É admissível e até necessário que a linguagem específica da tecnologia, da ciência ou de uma profissão, como a terminologia dos computadores, por exemplo, mantenha o uso de empréstimos (como deletar), de decalques (como salvar, em lugar de “guardar”) ou de estrangeirismos (como e-mail, download, backspace, shift, etc.), até porque sua universalidade os torna cômodos. Mas a existência de equivalentes semânticos no nosso léxico deveria inibir o uso ou o abuso desses recursos lingüísticos ou metalinguísticos estranhos ao nosso idioma, sobretudo quando não se trata de linguagem técnica, nem específica de uma área do conhecimento humano.
O sufixo –ância ou –ança , legitimamente português, exprime ação, vigilância, e não raro forma substantivos a partir de verbos, como matança (matar), governança (governar), esquivança (esquivar), usança (usar), criança (criar), poupança (poupar), gastança (gastar), esperança (esperar), confiança (confiar), ignorância (ignorar), observância (observar), constância (constar), distância (distar), militância (militar) instância (instar), predominância (predominar), etc. Também exprime porção, coletividade, como em: vizinhança (vizinho), molhança (molho); e aumento, como em: carrança (que designa pessoa presa às tradições), festança (festa), etc.
Privança é um substantivo de uso clássico na língua, formado a partir do verbo privar. Por uma questão de colonialismo cultural, acabou sendo substituído por privacidade, neologismo recentemente incorporado à língua a partir do inglês privacy. Ora, os substantivos formados com o sufixo –(i)dade se originam basicamente de adjetivos, como realidade (real), elasticidade (elástico), agilidade (ágil), felicidade (feliz), humanidade (humano), crueldade (cruel), lealdade (leal), etc. Raramente um substantivo é a base da formação de outro substantivo em –dade, como irmão (irmandade). Privacidade teoricamente, se não fosse um anglicismo, deveria ter sido formado a partir de um hipotético adjetivo terminado em –z ou em –ico, à semelhança de vivaz (vivacidade) ou elétrico (eletricidade). Como esse adjetivo (privaz ou prívaco) não existe, a má-formação do nome privacidade denuncia a bastardia do empréstimo. O ideal seria retomar a forma vernácula privança ou adotar o nome também já existente na língua, dicionarizado e mais adequado, formado a partir de privativo: privatividade.
Outro neologismo formado desnecessariamente a partir do inglês é o verbo internalizar e seu particípio internalizado, de uso generalizado na literatura linguística, sobretudo depois do advento da gramática transformacional. Ora, esse sufixo –izar forma verbos a partir de substantivos, como horrorizar (horror), atemorizar (temor), aromatizar (aroma), martirizar (mártir); ou de adjetivos, como realizar (real), suavizar (suave), vulgarizar (vulgar), finalizar (final), formalizar (formal), etc. Como não existe nenhum adjetivo “internal” em português, o verbo adequado, em lugar de internalizar, deveria ser interiorizar (de interior).
Também marca de subserviência cultural, parece-me, é a grafia híbrida do nome da maior cidade norte-americana: Nova York.
Hibridismo é o nome que se dá a uma palavra composta de formas de línguas diferentes. Assim, goleiro, por exemplo, é formado por elementos de duas línguas distintas: do inglês goal mais o sufixo português –eiro (que aparece em brasileiro, açucareiro, cajueiro). Além desse hibridismo vocabular, há o hibridismo gráfico. A grafia preferida e divulgada pela mídia do nome dessa cidade americana é “Nova York”, em que se mistura a grafia portuguesa (Nova) com a grafia inglesa (York). Esse hibridismo é tão deplorável quanto “New Iorque”. Ou se escreva à americana “New York” ou se escreva à portuguesa “Nova Iorque”. Misturar as grafias é profundamente lastimável. Sobretudo porque quem nasce lá é nova-iorquino, com i, e não “nova-yorkino”, com y, apesar da absurda aceitação recente de “nova-yorkino” pelos “donos” da língua, os autores do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa… A nova ortografia aceita o y para antropônimos e topônimos originários de outras línguas e em seus derivados, mas a forma “nova-iorquino” é legitimamente vernácula. A forma “nova-yorkino” não existe em nenhum dicionário anterior a essa reforma ortográfica inútil, burra e inoportuna.
Como disse, não sou purista. Mas parece-me de mau gosto usar estrangeirismos desnecessários, em detrimento de expressões ou de grafias legitimamente vernáculas.
(*) José Augusto Carvalho é Mestre em Linguística pela Unicamp e Doutor em Letras pela USP.



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