UM ENSANDECIDO À SOLTA

Estilo bélico de risco

Não é bom para o agronegócio

As dezenas de frentes de conflito abertas pelo presidente Jair Bolsonaro, abstraída a análise de mérito, têm como consequências imediatas o aumento do protagonismo do Poder Legislativo e a fragmentação de ações de governo constantes da pauta determinante para a vitória eleitoral de 2018.

O governo está centralizado na figura do presidente da República, que cuida pessoalmente da pauta mais simplória até a mais complexa – dos radares de trânsito ao enfrentamento da burocracia de Estado. Por último, do confronto em torno da questão ambiental, a que a Europa tenta dar dimensão de crise mundial.

O presidente da República assume pessoalmente as consequências políticas de uma estratégia de risco, em que o principal foco – a economia – demora a reagir às medidas de estímulo.

A dispersão de energia possivelmente responde pela demora na adoção de medidas paliativas na economia, condicionadas à aprovação de mudanças estruturais importantes, mas de efeito no longo prazo. A rigor, a sucessão de embates que protagoniza transformou o presidente no catalisador das incertezas conjunturais em que navega a política econômica.

Nesse contexto de muita poluição política, a área econômica conseguiu, até aqui, tocar a pauta do resgate da economia. Mesmo não imune às consequências das políticas de confronto do governo, conseguiu apresentar uma proposta de privatização e somar na união de esforços pela tramitação da reforma tributária.

O discurso exarcebado, porém, não costuma ser boa política e nem render dividendos aos governos. No conflito ambiental, mais uma vez a racionalidade partiu do Legislativo, na figura do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ao propor objetivamente o direcionamento de R$ 2,5 bilhões do Fundo da Petrobrás para o combate às queimadas e como reforço aos orçamentos do meio-ambiente e educação.

Maia deu uma resposta política às críticas internacionais. Mesmo episódica, é suficiente para remeter a um tempo mais oportuno a discussão aprofundada da questão ambiental, sob o prisma geopolítico.

O governo aumentou o protagonismo do Legislativo, onde sua base de apoio, embora numerosa, é frágil. Um diagnóstico que tende a se agravar com a perspectiva de fusões partidárias determinadas pelas eleições do próximo ano, que já ocorrerão sem coligações e sob a regra da cláusula de desempenho.

A determinação de enfrentar a burocracia de Estado de forma errática, igualmente gera atritos internos de alta combustão. Destaca-se nesse cenário o enfraquecimento político imposto ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, agora acossado pela determinação pessoal de Bolsonaro em mudar a direção da Polícia Federal.

As declarações e ações do presidente da República também ressuscitam conflitos internos, alguns razoavelmente administrados, como as relações do agronegócio e ambientalistas, que registraram avanços e permitiram a consolidação do setor produtivo como fator estável fundamental na composição do PIB nacional.

Não é bom para o agronegócio brasileiro o estilo bélico do governo na abordagem do meio-ambiente como fator manipulador do protecionismo europeu. Esse aspecto da questão existe, mas seu enfrentamento exige sofisticação política apoiada em ações efetivas de preservação ambiental, sob o risco de favorecer os concorrentes comerciais do Brasil. É o que sinaliza ao governo o segmento do agronegócio.

A França tem seus interesses no discurso de contestação à gestão brasileira na Amazônia – e eles não surgiram agora. Apenas recrudescem, não por acaso, após o acordo entre Mercosul e a União Europeia, que a França pode acabar implodindo antes mesmo do início de sua costura mais ampla, por si só já extremamente complexa.

É pouco provável que a proposta do presidente francês Emmanoel Macron, de discutir as queimadas na Amazônia como uma crise internacional, tenha apoio dos Estados Unidos no G-7. Mesmo assim, a combustão das queimadas levou o Brasil à pauta dos mais ricos de forma negativa e aumentou o risco estratégico e político.*

(*) João Bosco Rabello é jornalista do site Capital Político (capitalpolitico.com)

CALA A BOCA, DILMO!

Panelaço deu a Bolsonaro aparência de ‘Dilmo’

Sob os efeitos de uma crise ambiental que ele mesmo criou, Jair Bolsonaro exibiu seu cenho crispado numa rede nacional de tevê. Expôs uma fluorescente consciência ambiental. Tratou a floresta amazônica com insuspeitado apreço. Reprovou o desmatamento. Expôs um plano anti-queimadas. Tudo isso e mais um pedido de “serenidade”. Ou seja, Bolsonaro estava completamente fora de si. Eis senão quando, de repente, ouviu-se o som das panelas. Antecedido por um ronco das ruas, o panelaço ateou na plateia uma sensação de déjà vu. O capitão ganhou uma incômoda aparência de ‘Dilmo’.

Bolsonaro soou como anti-Bolsonaro. “A proteção da floresta é nosso dever”, declarou a certa altura. “Estamos cientes disso e atuando para combater o desmatamento ilegal e quaisquer outras atividades criminosas que coloquem a nossa Amazônia em risco.” Foi como se o presidente expusesse uma agenda secreta, pois desde que assumiu, há oito meses, conduzia o governo noutra direção. Desossou o Ibama, anestesiou a fiscalização ambiental e transformou em letra morta o artigo 111 do decreto 6.514, de 2008, que autoriza a destruição de máquinas e veículos de ladrões de madeira.

Noutro trecho, o capitão disse comandar “um governo de tolerância zero com a criminalidade.” O brasileiro ficou autorizado a suspeitar que está sendo governado por um sósia de Bolsonaro. Um sujeito desqualificado, capaz de promover o ministro Sergio Moro da frigideira para o micro-ondas, desligar o Coaf da tomada e expor na frente das crianças sua tara por intervenções na Receita e na Polícia Federal. A intolerância com o crime será idêntica “na área ambiental”, declarou Bolsonaro, distanciando-se do sósia, que acomodou Ricardo Salles, um sentenciado por improbidade, na poltrona de ministro do Meio Ambiente.

Para deter as queimadas, Bolsonaro disse ter oferecido “ajuda a todos os estados da Amazônia Legal”. Envolve o emprego das Forças Armadas. Na véspera, o sósia chamava os governadores de cúmplices de ONGs piromaníacas. E lavava as mãos: “O Ministério da Justiça pode mandar 40 homens. Dá para entender? Quarenta homens para combater incêndio! Dá para entender? Não tem recurso. Chegou num caos”.

O Bolsonaro da tevê referiu-se ao Brasil como “exemplo de sustentabilidade”. Enalteceu o Código Florestal brasileiro como um “modelo para o mundo”. Há apenas dois meses, o sósia do capitão editara uma medida provisória que conspirava contra um dos pilares do código. Extinguia o prazo para que os donos de terras realizassem o Cadastro Ambiental Rural. Algo muito parecido com uma anistia para desmatadores, pois o cadastramento permitiria a cobrança de multas de proprietários rurais em desacordo com as exigências ambientais do código. As panelas entraram em transe.

O anti-Bolsonaro pediu “serenidade” no trato de matérias ambientais. Endereçou uma indireta para o presidente francês Emmanoel Macron, que ilustrara um tuíte sobre o surto de queimadas na Amazônia com uma foto antiga, clicada por um fotógrafo que morreu em 2003: Loren McIntyre, da National Geographic. O sósia de Bolsonaro deve ter vestido a carapuça.

Além de atribuir crimes às ONGs sem provas, o sujeito que se faz passar pelo capitão no trono do Planalto compartilhara nas redes sociais um vídeo radioativo. Exibe a matança de golfinhos nas ilhas Feroe. O propósito do sósia era o de alfinetar a Noruega, que suspendera repasses financeiros para o Fundo Amazônia. O diabo é que as ilhas Feroe pertencem à Dinamarca, não aos noruegueses.

Em sua versão televisiva, Bolsonaro vendeu-se como um cultor do “diálogo”. Nada a ver com o impostor do Planalto, que cria crises do nada. Revelou, de resto, que “outros países se solidarizaram com o Brasil”, oferecendo “meios para combater as queimadas” e prontificando-se para atuar como advogado do Brasil na reunião do G7, neste final de semana. Referia-se aos Estados Unidos de Donald Trump. O sósia de Bolsonaro, após dar de ombros para a suspensão de doações milionárias da Alemanha e da Noruega, decerto responderia a Trump que “o Brasil não precisa” de esmolas.

A descoberta de que há no governo um Bolsonaro clandestino, portador de uma agenda ambiental secreta, é uma novidade alvissareira. Agora, para exorcizar o fantasma “Dilmo”, silenciar as panelas e devolver as ruas às suas casas, basta eliminar o sósia.*

(*) Blog do Josias de Souza

 

BALÃO FURADO

The Intercept vai minguando, enquanto a Lava Jato mostra estar cada vez mais viva

A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta sexta-feira, dia 23, a 64ª fase da Operação Lava Jato, denominada Pentiti, para apurar supostos crimes de corrupção envolvendo o Banco BTG Pactual e a Petrobrás na exploração do pré-sal e ‘em projeto de desinvestimento de ativos’ na África. De acordo com a corporação, os supostos crimes podem ter causado prejuízo de ao menos US$ 1,5 bilhão, o que equivaleria a cerca de R$ 6 bilhões de reais hoje.

Cerca de 80 policiais federais cumpriram 12 mandados de busca e apreensão nas cidades de São Paulo(SP) e Rio de Janeiro (RJ). As medidas foram autorizadas pela juíza Gabriela Hardt, da 13ª. Vara Federal de Curitiba, no Paraná.

DELAÇÃO DE PALOCCI – A operação apura crimes de corrupção ativa e passiva, organização criminosa e lavagem de capitais relacionadas a recursos contabilizados na planilha ‘Programa Especial Italiano’ gerida pela Odebrecht. A Polícia Federal agora está identificando os beneficiários da planilha e apurando como se davam as entregas de valores ilícitos a autoridades.

Segundo a PF, a investigação trata de fatos de diferentes inquéritos policiais e foi impulsionada pelo acordo de colaboração premiada do ex-ministro Antônio Palocci.

O nome da operação, Pentiti, significa ‘arrependidos’, segundo a PF, e faz referência ‘a termo empregado na Itália para designar pessoas que integraram organizações criminosas e, após suas prisões, decidiram se arrepender e colaborar com as autoridades para o avanço das investigações’. *

(*) O TEMPO

SEGURA QUE O FILHO É TEU

No Ocidente, Bolsonaro é pária na área ambiental

Os países europeus confiam mais no regime de Teerã na questão nuclear do que no governo de Jair Bolsonaro em política ambiental. Este é o resultado da deterioração abrupta da imagem brasileira ao longo deste ano. De vanguardista de defesa do meio-ambiente, se torna aos poucos um pária em nações ocidentais europeias e também no Canadá.

A Finlândia pede boicote à carne brasileira. França e Irlanda passam a se opor ao acordo entre Mercosul e União Europeia. A questão das queimadas na Amazônia será levada para a reunião do G7. Líderes do Canadá, França e Reino Unido querem medidas urgentes. Noruega e Alemanha cortaram o Fundo Amazônia.

Chega a ser irônico observar este cenário uma vez que Bolsonaro dizia ser pro- Ocidente. Mas países ocidentais querem distância dele. Virou um patinho feio. Não esqueçamos que o Museu de História Natural vetou evento em homenagem ao presidente brasileiro em Nova York.

Não será simples recuperar a imagem brasileira. Uma das medidas urgentes é trocar o comando da política externa. A estratégia de se dizer defensor dos “valores cristãos e ocidentais” propagada pelo chanceler Ernesto Araújo fracassou. O Ocidente, ao menos o europeu, não compartilha dos mesmos ideais do governo Bolsonaro.

E, curiosamente, aliados de Bolsonaro como Netanyahu, Orban e Salvini, até agora, não saíram em defesa do presidente brasileiro. Só Trump escreveu um tweet oferecendo ajuda.*

(*) Guga Chacra – O Globo

JOGANDO GASOLINA NA FOGUEIRA

É hora de largar o discurso de ódio e pedir ajuda

Nesta era de tantas informações, buscar um caminho novo, achar uma fresta que encontre o olhar do leitor sobre um tema em evidência é um desafio e tanto. Difícil trazer notícias frescas sobre o fogo na Amazônia, se as redes sociais elegeram o assunto como top entre tantos outros. Ao mesmo tempo, impossível não escrever sobre um tema do qual eu me ocupo há mais de uma década. O meio ambiente, o desenvolvimento sustentável, precisa mesmo de toda a atenção do mundo. De um jeito enviesado, é o que está ocorrendo.

Muito boa a entrevista feita pela repórter Daniela Chiaretti, para o “Valor Econômico”, com o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Marcello Brito. O empresário esclareceu que há produtores de primeira linha, que usam um maquinário sofisticado para não precisar desmatar (tanto) a floresta na hora de executar suas tarefas. E há os outros, que classificaremos como de “segundo time”, aqueles que terão “desconto no preço do produto”, que praticam o “business as usual”. Talvez seja um recado para a comunidade internacional, que já anda pensando em boicotar os alimentos produzidos num país que põe fogo na maior floresta tropical do mundo.

Marcello Brito se faz uma pergunta que eu penso ser crucial, que todos os cidadãos brasileiros deveriam se fazer neste momento de crise: “A quem interessa isso?”

Vou lhes garantir a quem não interessa: aos indígenas, povos que vivem nessa floresta em chamas e que há tempos vêm denunciando as barbaridades que estão acontecendo no campo. Preocupei-me com eles ao ver as fotos das chamas ardendo. Há bichos e árvores sendo queimadas, e ali também há vidas humanas que podem estar em grande risco.

Fiz contato com um amigo que volta e meia está na floresta ao lado dos xinguanos, e felizmente soube que naquela região, ao menos, o fogo ainda não chegou. A queimada ali existe, mas é considerada “normal” para o período. Dannyel Sá mandou-me, porém, a foto do sol nascendo através de uma névoa de fumaça, o que mostra a reverberação do problema que está bem próximo dali. Mandou-me também uma nota técnica do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Ipam) com uma observação: “Esta análise mostra que este ano a seca não está tão intensa, ou seja, o fogo é causado pelo desmatamento mesmo”.

A nota do Ipam mostra dados colhidos este mês e conclui:

“A Amazônia está queimando mais em 2019, e o período seco, por si só, não explica este aumento. O número de focos de incêndios, para a maioria dos estados da região, já é o maior dos últimos quatro anos. É um índice impressionante, pois a estiagem deste ano está mais branda do que aquelas observadas nos anos anteriores. Até 14 de agosto, eram 32.728 focos registrados, número cerca de 60% superior à média dos três anos anteriores para o mesmo período. A média de dias cumulativos sem chuva até 14 de agosto de 2019 variou entre 11 dias (Amazonas) e 29 dias (Roraima). A ocorrência de incêndios em maior número, neste ano de estiagem mais suave, indica que o desmatamento possa ser um fator de impulsionamento às chamas. Os dez municípios amazônicos que mais registraram focos de incêndios foram também os que tiveram maiores taxas de desmatamento… representa um forte indicativo do caráter intencional do incêndios: limpeza de áreas recém-desmatadas”, diz a nota.

De 10 a 15 de agosto deste ano, 2.500 mulheres indígenas de 130 diferentes etnias fizeram uma marcha em Brasília. A caminhada, que coloriu bastante o entorno do palácio do poder, visava a chamar atenção para os atos do governo Bolsonaro, que para elas deixa explícita uma política de extermínio dos povos indígenas. Por mais que possa parecer, a nós cidadãos conscientes, as mulheres indígenas focaram no seu manifesto um pedido que nem precisaria ser feito: elas querem respeito e tranquilidade para cuidar das florestas.

“Somos totalmente contrárias às narrativas, aos propósitos, e aos atos do atual governo, que vem deixando explícita sua intenção de extermínio dos povos indígenas, visando à invasão e exploração genocida dos nossos territórios pelo capital. Essa forma de governar é como arrancar uma árvore da terra, deixando suas raízes expostas até que tudo seque. Nós estamos fincadas na terra, pois é nela que buscamos nossos ancestrais e por ela que alimentamos nossa vida”, diz o texto do documento final da Marcha das Mulheres Indígenas.

Aos descrentes pode parecer pura retórica. Para quem conhece as práticas indígenas, os cuidados que esses povos ancestrais têm com a mata que lhes garante a vida, no entanto, este é um depoimento que deveria ser ouvido com atenção. A questão é que quase 58 milhões de brasileiros preferiram dar ouvidos e o poder a um político que, desde a campanha (Bolsonaro é coerente todo o tempo) se posicionou contrário a tais evidências. O homem se elegeu dizendo não acreditar em mudanças climáticas e acreditando que tudo precisa ser revertido em capital. E sempre disse que indígena precisa de dinheiro.

Estamos vivendo, portanto, uma espécie de crônica de uma crise anunciada. A equação é de fácil dedução: despotencializa os principais guardiães da floresta, tira os fiscais e, em discurso, alardeia aos quatro cantos de que o país precisa da floresta para se desenvolver e que quem pensa em preservação está contra nosso progresso. Resultado direto: os aproveitadores de plantão, aqueles produtores que não têm o menor compromisso com o futuro e só pensam em tirar proveito de uma situação caótica, entram em ação. O fogo se espalha.

Para controlar a situação será preciso largar o discurso de ódio e pedir ajuda. Será preciso voltar a fiscalizar. Será preciso deixar que os povos indígenas façam a sua parte, e respeitá-los. Não há nenhuma novidade nisso. Mas vai dar trabalho, e muito.

Desenvolver sim, mas de forma sustentável, também não é retórica vazia.*

(*) Amélia Gonzales – G1

QUANDO ELE FOI A FAVOR?

Crítica de Deltan sinaliza distanciamento de Bolsonaro

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A entrevista do procurador Deltan Dallagnol ao jornal Gazeta do Povo, com críticas ao pouco empenho de Jair Bolsonaro na aprovação do pacote anticrime proposto pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro, pode indicar um distanciamento cada vez maior dos integrantes da Lava Jato em relação ao presidente.

Ao citar que Bolsonaro, “ao longo da campanha eleitoral, se apropriou de uma pauta anticorrupção” e que “agora nós vemos que ele está se distanciando desta pauta ao colocar em segundo plano o projeto anticrime do juiz federal Sérgio Moro”, Deltan dá o tom da insatisfação com a situação. Mesmo desgastado pelo caso da Vaza Jato, Deltan ainda é o coordenador da Força Tarefa da Lava Jato e um de seus principais líderes.*

(*) Equipe BR Político – Estadão

ANÃO BOTANDO FOGO NO CIRCO

Fio BRP: 5 pontos que explicam a crise ambiental

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Desde antes de assumir a Presidência, Jair Bolsonaro já demonstrava a afirmava aos quatro ventos que o meio ambiente não estaria entre as suas prioridades. Tanto é, que Bolsonaro cogitou unir em umas só pasta os ministérios da Agricultura e Meio Ambiente. Mas não precisamos ir tão longe para entender a crise ambiental na qual o País está atolado. O BRPolítico  elencou cinco acontecimentos do último mês que explicam toda a treta que envolve não só a Amazônia e o Brasil, mas também colocam em xeque o acordo comercial fechado entre o Mercosul e a União Europeia.

1. O Inpe bem que tentou avisar que o desmatamento na Amazônia havia aumentado desde o início do governo Bolsonaro. Mas isso irritou bastante o Planalto, que preferiu questionar os números do órgão. A “ocorrência” levou à saída do diretor do Inpe, Ricardo Galvão.

2. Noruega e Alemanha, os dois principais financiadores do Fundo Amazônia, que desembolsavam mais de R$ 100 milhões para proteger a floresta decidiram cancelar as suas contribuições. O começo desse imbróglio foi quando o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sem apresentar qualquer prova de irregularidade, convocou uma coletiva de imprensa para criticar o modelo de gestão do projeto. Apesar de Salles ter dito que comunicou aos dois países as mudanças que desejava fazer no fundo, e que tanto a Noruega quanto a Alemanha teriam concordado com a proposta, as respectivas embaixadas negaram as declarações dele. As declarações do presidente Bolsonaro, como sempre, serviram para botar mais lenha na fogueira.

3. E como o País já estava metido em confusão com os nórdicos, Bolsonaro não viu problemas em meio a troca de farpas, de dizer que o país não tinha legitimidade para questionar a política ambiental brasileira. “Noruega? Não é aquela que mata baleia lá em cima, no Polo Norte, não? Que explora petróleo também lá? Não tem nada a oferecer para nós”, disse o presidente. Depois disso, Bolsonaro ainda publicou um vídeo da Dinamarca sobre a caça de baleias e atribuiu à Noruega.

4. Nesta semana, quando o clima de tensão subiu, o presidente, em uma de suas paradinhas para falar com jornalistas, insinuou, mais de umas vez, que ONGs poderiam ser responsáveis pelos incêndios que estão acontecendo na região amazônica. O presidente afirmou que o Brasil enfrenta uma “guerra da informação” criada a partir do momento que repasses de verbas a instituições de proteção ao meio ambiente foram suspensas pelo governo. “De modo que esse pessoal tá sentindo a falta do dinheiro. Então pode estar havendo, sim, pode, não estou afirmando, ação criminosa desses ‘ongueiros’, afirmou.

5. Depois de renovar sua guerra contra as ONGs ligadas ao meio ambiente, Bolsonaro não gostou nada de ver o presidente da França, Emmanuel Macron, chamar a Amazônia de “nossa casa” e convocar os membros do G7 (Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão, Reino Unido e União Europeia) para discutir o que chamou de “crise internacional” das queimadas na região amazônica. Bolsonaro contra-atacou, disse que Macron “evoca mentalidade colonialista” e quer “instrumentalizar” uma questão interna do Brasil. A tréplica do francês foi direta e agressiva. Macron disse que Bolsonaro “mentiu” sobre seus compromissos com o meio ambiente e anunciou que, sendo assim, a França se opõe ao acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul.” Essa declaração gerou outros indicativos de embargos à commodities por parte de outros europeus.*

(*) Cassia Miranda – Estadão

JOGADOR NUM TIME DE PELADEIROS

Bolsonaro muda discurso e retira carta branca prometida a Moro
Interferência do presidente na PF é tida como símbolo da falta de poder do ministro


O presidente Jair Bolsonaro (PSL) mudou seu discurso e retirou a carta branca prometida ao ministro Sergio Moro (Justiça).

A recente interferência na Polícia Federal é apontada internamente como a mais emblemática da falta de poder do ex-juiz no cargo atual, mas episódios com teor semelhante se acumularam ao longo de mais de oito meses do governo Bolsonaro.

Apesar dos ataques à sua prometida autonomia, Moro permanece calado.

Quando confirmou o convite, em novembro de 2018, Bolsonaro disse em entrevistas que tinha combinado com Moro que ele teria “liberdade total” para o combate à corrupção e ao crime organizado.

Em uma das manifestações, o então presidente eleito citou a escolha do chefe da Polícia Federal como uma das atribuições do ministro da Justiça.

Os últimos oito dias foram de crise entre Bolsonaro, Moro e a PF, após o presidente atropelar a instituição e anunciar a troca do superintendente no Rio de Janeiro.

Em sua última declaração sobre o assunto, na última quinta-feira (22), o presidente ameaçou até trocar o comando do órgão, hoje a cargo de Maurício Valeixo.

A PF é subordinada ao Ministério da Justiça, e Valeixo virou chefe por escolha de Moro. Os dois se conhecem há vários anos e trabalharam juntos na Operação Lava Jato.

“Agora há uma onda terrível sobre superintendência. Onze [superintendentes] foram trocados e ninguém falou nada. Sugiro o cara de um estado para ir para lá: ‘Está interferindo’. Espera aí. Se eu não posso trocar o superintendente, eu vou trocar o diretor-geral”, afirmou Bolsonaro.

“Se eu trocar hoje, qual o problema? Está na lei que eu que indico, e não o Sergio Moro. E ponto final”, completou.

Antes, Moro havia sido atropelado por Bolsonaro em pelo menos outros cinco casos, desde a ordem de revogação da nomeação de uma suplente para um cargo de conselho vinculado ao ministério até a demissão de um dos seus maiores aliados, o presidente do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras).

Entre colegas do ministro da Justiça, ninguém consegue apontar vitórias que ele tenha tido entre quedas de braço com o presidente.

Em meio à crise com a polícia, Jair Bolsonaro foi claro no recado: “Quem manda sou eu”, afirmou.

Quando Moro aceitou seu convite para largar 22 anos de carreira de juiz federal e assumir o Ministério da Justiça, o presidente lançava mão de outro discurso.

“Eu conversei com ele [Moro] que ele terá tanto a liberdade para escolher todos os que comporão seu segundo escalão, como o chefe da Polícia Federal, aquele que vai cuidar da segurança [também]”, afirmou Bolsonaro em uma das entrevistas.

“Ele [Moro] expôs o que ele gostaria de fazer caso seja ministro, e eu concordei com 100% do que ele propôs. Ele [Moro] queria uma liberdade total para combater a corrupção e o crime organizado”, afirmou em outra ocasião.

Em outro momento, o presidente chegou a falar que Moro teria “muito mais poderes” em Brasília do que como juiz para perseguir o objetivo de combate à corrupção e ao crime organizado.

A primeira derrota do ministro ocorreu logo nos primeiros dias de governo, com a edição do decreto das armas, em que teve suas sugestões ignoradas pelo presidente. Embora tenha saído do seu ministério, o texto nunca foi bancado de fato por Moro.

Em fevereiro, teve de revogar a nomeação da especialista em segurança pública Ilona Szabó de Carvalho como membro suplente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária.

A escolha de Szabó para compor o órgão —um cargo voluntário e sem funções executivas no governo— foi acompanhada de uma campanha crítica de apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais. Um dia depois, pressionado pelo presidente, Moro teve de voltar atrás.

No segundo trimestre de governo, o ministro da Justiça começou a ter sucessivas derrotas com seu projeto anticrime, que não teve apoio total do presidente até agora.

Em entrevistas, Bolsonaro chegou a dizer que Moro não tem mais a caneta que tinha como juiz e que teria de esperar um pouco para trabalhar o texto na Câmara.

Outro revés recente ocorreu com uma nomeação ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). Sua indicação não foi aceita e ele soube da notícia pela imprensa.

Moro também perdeu o Coaf de volta para o Ministério da Economia. Embora a decisão tenha sido do Congresso, o Palácio do Planalto não fez esforço para ajudar a manter o órgão em sua pasta.

Em seguida, o ministro viu um dos seus principais aliados da Lava Jato, o auditor Roberto Leonel, nomeado por sua vontade como presidente do Coaf, ser exonerado, com a transferência do órgão ao Banco Central.

A Folha questionou a assessoria do Planalto se o presidente mudou de opinião em relação à liberdade total que dissera que concederia a Moro e por qual motivo. A reportagem não obteve respostas.

O ministro também foi procurado. Questionado se ele considera que perdeu a carta branca que lhe havia sido prometida, o ministro não respondeu.

O silêncio de Moro diante dos sucessivos movimentos de interferência de Bolsonaro na PF tem causado estranheza na cúpula do órgão.

Nos dias seguintes após a primeira manifestação do presidente, no último dia 16, o ex-juiz não deu nenhuma declaração sobre esse assunto e tentou, por meio de interlocutores, passar a impressão de que estava distante do problema.*

(*) Camila Mattoso – Folha de São Paulo