FOLHEADO A OURO COM PÉS DE BARRO

Aécio vira farinata

Câmara e Senado viraram casas de tolerância. E nós nos tornamos uma plateia bem-comportada

Eles são Aécio amanhã. Livres, leves e soltos. Há tempos não se via tamanho assanhamento em Brasília. Senadores, deputados e ex-presidentes, investigados por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa, deram um suspiro de alívio. Tucanos, peemedebistas, petistas. Todos acima da lei.

Companheiro nosso a gente salva. Mesmo que o deixemos falando sozinho. Assim os senadores fizeram com Aécio Neves. O mineiro mais carioca do Brasil, o segundo nome mais votado à Presidência, que posava de bastião da moralidade e da ética, não teve coragem de subir à tribuna em seu retorno. Só falou dois minutos, junto à cadeira. Os colegas nem olharam. Não aplaudiram nem vaiaram. Mas vários adiaram cirurgias para votar a favor dele.

Aécio reagiu como à retomada de seu mandato? “Com serenidade.” E ainda se disse dono do “voto de mais de 7 milhões de mineiros”, que devem se sentir para lá de ludibriados. Abandonou a calma para esbravejar contra “os bandidos” Batista, aqueles mesmos empresários amigos a quem ele havia pedido “um empréstimo” de R$ 2 milhões para pagar seus advogados de defesa. Contra essa versão, qualquer outra tem mais credibilidade.

Tucano depenado, Aécio foi pressionado a deixar a presidência do PSDB. Seu ex-amigo Tasso Jereissati tenta a todo custo evitar a septicemia generalizada no ninho. Resistiu, dizendo a jornalistas que “não discute questões partidárias pela imprensa”. E se colocou como vítima de “ardilosa armação”.

Os senadores e deputados estancaram a sangria, como previa o então ministro do Planejamento Romero Jucá, em março do ano passado. Estancaram a sangria com a ajuda do Supremo Tribunal Federal, que deixou às raposas a tarefa de julgar a si mesmas. O Congresso passou a ser mestre de seu destino, sem ingerência dos ministros de toga.

É sintomático que todos os políticos indiciados na Lava Jato digam “confiar na Justiça”. Estão certos. Confiam na impunidade. Não podem ser presos, não podem ser recolhidos a suas casas, não podem ser punidos com medidas cautelares diferentes da prisão… a não ser que seus pares consintam. Quase 30 senadores podem se beneficiar da mesma condescendência. Na Câmara, um quarto dos deputados está sob investigação. A Lava Jato não tira mais o sono deles. Câmara e Senado viraram casas de tolerância.

Armação. Conspiração. Complô. Perseguição. Traição. Temos visto, da plateia, um desfile de senadores, deputados, governadores, prefeitos, empresários se dizendo vítimas de delatores, da Polícia Federal, do Ministério Público e do juiz Sergio Moro. Nós nos tornamos uma plateia bem-comportada, só enraivecida nas redes sociais. Malas de dinheiro. Cavernas de dinheiro. Propinodutos.

A semana que passou contribuiu muito para a sensação de nocaute na sociedade. É Temer ajudando Aécio que ajuda Temer a se livrar da segunda denúncia – e todos recebendo visitas e ligações de solidariedade do supremíssimo Gilmar Mendes em dias decisivos. E Rodrigo Maia fazendo a dança do passinho entre uns e outros, contorcendo não só o pescoço, mas a palavra e o olhar. Todos mirando 2018. Até Eduardo Cunha pergunta, em artigo no jornal Folha de S.Paulo: “Quem me quer como troféu?”.

Já se rediscute até uma medida saneadora e tão celebrada pela sociedade: a prisão após condenação em segunda instância, que havia sido decidida pelo STF. Uma discussão patrocinada pelo ministro do Supremo Alexandre de Moraes. A turma dele não descansará enquanto não revogar esse julgamento do próprio Supremo. Parece incrível, mas é possível.

O senador tucano, neto de Tancredo, é apenas o símbolo do momento da desmoralização da classe política. Não pode culpar a ninguém senão a ele próprio e a suas brincadeiras funestas e gravadas, como a sugestão de “matar antes da delação”. Se existe uma ardilosa armação, não é contra ele, mas contra seus eleitores.

Aécio virou uma espécie de farinata. Um composto feito à base de produtos prestes a perder a validade. Proibido para menores, vetado em escolas. Um senador que seu partido não deseja mais como líder – só como álibi. E como ração humana, destinada à sobrevivência política.*

(*) Ruth de Aquino – O Globo

Compartilhe...Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on LinkedInEmail this to someone

MODERNIDADE

Dona Pureza disse o essencial

O tamanho do retrocesso embutido na portaria do atual governo sobre trabalho análogo à escravidão é obsceno

Faz exatamente 20 anos que uma cabocla maranhense saiu de Bacabal, cidade-fornalha na divisa com o Pará, e desembarcou no inverno de Londres com apenas uma sacola de viagem comprada e equipada pela Pastoral da Terra de São Luiz. A bagagem continha produtos de higiene pessoal e roupa íntima. Um vestido de gala lhe seria presenteado na capital inglesa.

Em 54 anos de vida Pureza Lopes Loiola nunca havia saído da roça.

À sua espera no aeroporto de Heathrow estava um intérprete encarregado de traduzir a narrativa dessa brasileira que se alfabetizou aos 40 anos para ler a Bíblia e tentar achar o filho sumido nas entranhas do trabalho escravo rural brasileiro. O intérprete também ajudou a viajante a absorver aquele mundão novo para o qual ela havia sido catapultada sem querer.

Indicada pela Pastoral maranhense ao prêmio 1997 da Anti-Slavery International, entidade pioneira fundada na Inglaterra em 1839 para combater o tráfego de escravos no mundo, dona Pureza havia sido a vencedora. E para receber a homenagem foi preciso viajar.

A primeira perna até São Luís foi de ônibus. Dali embarcou num voo até Salvador, com troca de avião em Fortaleza e escalas no Recife e em Natal. Por último, a travessia noturna do Atlântico, rumo ao destino final desconhecido. Coisa de 32 horas entre a sua casa de tijolo sem reboco no setor mais desassistido de Bacabal, e um dos aeroportos mais pantagruélicos do mundo.

Como a homenageada nunca tinha viajado de avião, e estava sozinha, a Pastoral e os anfitriões ingleses trataram de informar as respectivas empresas aéreas sobre a presença a bordo de passageira tão especial.

Preocupação desnecessária. Evangélica de fé, dona Pureza tirou tudo de letra. Só se inquietou no voo de retorno ao Brasil quando o comandante saiu da cabine, foi trocar algumas gentilezas com a passageira e acabou comentando que também iria tirar um cochilo. “Ué”, pensou a viajante, “ele não deveria continuar a pilotar o avião?”

A entrega do prêmio da Anti-Slavery — chamada mãe de todas as ONGs por ser a mais antiga do mundo — é solene e envolve uma programação intensa. Além da cerimônia principal no Westminster Central Hall, há uma recepção black-tie, beneficente, no cultuado hotel Savoy, uma visita ao Parlamento, ao Foreign Office, uma dezena de entrevistas e palestras em ONGs de outros países europeus — o roteiro alemão, por exemplo, incluiu Göttingen, Bonn, Düsseldorf, Aachen, Colonia, Heidelberg, Freiburg e Stuttgart.

A maratona de quase um mês não intimidou a estreante em terra estrangeira. Mulher inteligente e perceptiva, anotou tudo que lhe pareceu extraordinário para contar na volta ao pessoal da Quadra L, Rua 3, na Vila São João. Em uma das fitas que gravou, ouve-se um chiado contínuo por vários minutos. “Tá ouvindo?”, perguntava a todos. “Isso aí é o trem passando embaixo do mar. Uma maravilha — a gente embarca na Inglaterra e sai na França!”

Foi em 1993 que o caçula dos cinco filhos de dona Pureza saiu de casa em busca de emprego e acabou “sumido”. Um irmão e dois primos da maranhense também já haviam sido tragados em algum garimpo, fazenda ou carvoaria, sem deixar rastro.

Dona Pureza então decidiu pôr o pé na estrada. Largou a carvoaria que lhe rendia uns trocados e começou a percorrer os entrepostos de trabalhadores rurais desempregados. Mostrava a foto do filho de 18 anos e ia perguntando se alguém tinha visto aquele jovem com três dedos do pé esquerdo atrofiados.

Ao longo de três anos peregrinou, seguindo pistas que davam em nada. Mas anotava tudo o que via e ouvia — nomes de fazendeiros, locais suspeitos, tudo. De um sobrinho conseguiu emprestado um gravador que escondia na roupa de evangélica. Passou a gravar suas conversas com agenciadores de trabalho escravo, peões amedrontados, fazendeiros que jamais suspeitariam daquela crente. Na Pastoral ela encontrou incentivo para encaminhar denúncias a Brasília, a persistir. Escreveu dezenas de cartas a autoridades federais.

Dos presidentes Itamar Franco e, depois, Fernando Henrique Cardoso recebeu exatamente a mesma resposta protocolar. Dos conterrâneos José e Roseana Sarney não pronuncia o nome pois sequer responderam. À época, pelas contas da Pastoral da Terra, o número de brasileiros que trabalhavam sob vigilância armada, sem salário e cortados do mundo, em regime de escravidão, chegava a 26 mil.

“Lá em Brasília não têm misericórdia. Quando sentam na cadeira , acham que são semideuses. O Congresso passa o tempo todo brigando por dinheiro em vez de olhar com mais piedade para o povo”.

Esta coluna evoca aqui parte da viagem feita com dona Pureza duas décadas atrás, para “Veja”, por ela continuar atual. O tamanho do retrocesso embutido na portaria 1.129/2017do atual governo é obsceno. Alterar as regras de combate ao trabalho escravo, ou análogo ao trabalho escravo, num país em que as operações de fiscalização estão em ponto morto (foram 189 uma década atrás, este ano despencaram para 49), os recursos para a inspeção viraram farinata, e os beneficiários de sempre deixarão de ser nomeados, se encaixa na avaliação da cabocla respeitada em Londres:

“Lá em Brasília não têm misericórdia. Quando sentam na cadeira, acham que são semideuses”.*

(*) Dorrit Harazim é jornalista – O Globo

Compartilhe...Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on LinkedInEmail this to someone

O SABUJO DOS CANALHAS

Descanse, ministro Gilmar

O Brasil ficaria mais aliviado se o sabe-tudo do Supremo trabalhasse menos

Gilmar Mendes, o onisciente, onipotente e onipresente ministro do Supremo Tribunal Federal informou há dias que sua rotina é estafante: “Acho que me submeto a um trabalho exaustivo, mas com prazer. Eu não acho que faço trabalho escravo”. Não faz mesmo: escravo obedece, Gilmar só dá ordem. Mas é verdade que a agenda do juiz dos  juízes está permanentemente congestionada.

Além de manifestar-se sobre todos os assuntos que chegam ao STF, sejam essenciais ou irrelevantes, o operário de toga dá palpite em qualquer tema, cuida de uma próspera instituição de ensino, almoça com o presidente da República e janta com parlamentares, intromete-se em miudezas políticas, preside o Tribunal Superior Eleitoral e administra pessoalmente a mais produtiva usina de habeas corpus do mundo.

Mesmo com tanta trabalheira, o ministro vem encontrando tempo para combater com crescente intensidade a Operação Lava Jato. O Brasil ficaria mais aliviado se Gilmar Mendes descansasse.*

(*) Blog do Augusto Nunes

Compartilhe...Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on LinkedInEmail this to someone

ESTÁ TUDO DOMINADO

Barganha para salvar o mandato de Temer inclui até o aeroporto da Pampulha

No ano passado, a proposta de retomada dos voos de grande porte na Pampulha causou atrito com os sócios privados da concessionária BH Airport, que administra o aeroporto de Confins, a 38 quilômetros da capital mineira. Confins foi concedido em 2014 com participação da Infraero de 49%. Os acionistas privados – o grupo CCR e Aeroporto de Zurich – têm 51%.

CONCORRÊNCIA – Para a BH Airport, a retomada dos voos de longa distância na Pampulha – que desde 2005 passou a atuar apenas com aviação executiva e regional – poderia gerar forte concorrência com Confins, ameaçando o retorno financeiro da concessão e prejudicando a própria Infraero.

Em maio deste ano, o Ministério dos Transportes, comandado pelo PR de Valdemar Costa Neto, publicou uma portaria e uma resolução em consonância com os argumentos da BH Airport e vetou a volta de voos comerciais de grande porte ao terminal da Pampulha. A decisão irritou o prefeito da capital, Alexandre Kalil (PHS), que acusou o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Moreira Franco, de ser o responsável pela “canetada” que manteve o terminal fechado para grandes voos.

POLÊMICA – “Moreira Franco é um cara assíduo aqui, conhecido da população. Ele mandou dar uma canetada e resolveu um problema”, disse Kalil à época. O ministro rebateu: “Uma irresponsabilidade um prefeito de uma capital tão importante fazer esse tipo de declaração”.

Quatro dias depois do veto do Ministério dos Transportes, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) liberou o retorno de voos e de pousos de avião de grande porte no aeroporto da Pampulha, mas como a portaria já estava em vigor, o entendimento foi de que as grandes aeronaves poderiam operar no terminal, mas somente para voos locais. O imbróglio foi tema de audiência pública na Câmara. Na ocasião, representantes da BH Airport voltaram a se manifestar contra a abertura da Pampulha alegando prejuízos a Confins.

FALTAM VERBAS – Além dos votos para barrar a denúncia na Câmara, Temer tem um motivo de ordem financeira para dar respaldo ao pedido de Valdemar Costa Neto de suspender a privatização do aeroporto de Congonhas, o mais lucrativo da Infraero. Estudo do Ministério dos Transportes mostra que, sem Congonhas, seria preciso injetar imediatamente cerca de R$ 400 milhões na Infraero. E não há recursos disponíveis.

Quase 15% da receita da empresa vem de Congonhas. O segundo aeroporto mais rentável para a estatal é Santos Dumont, no Rio, que representa cerca de 8% da receita. Diante do diagnóstico, o ex-deputado do PR reforçou a pressão para reverter a decisão de privatizar o terminal.

Em nota divulgada nessa sexta-feira (20) à imprensa, a pasta dos Transportes confirmou que reavalia a concessão do aeroporto. “Dessa forma (com a privatização de Congonhas), os outros aeroportos do Sistema Infraero do país poderiam ser inviabilizados”, informou o ministério. A nota afirma ainda que a argumentação foi “técnico-financeira” e “sem interferências políticas externas”.*

(*) O Tempo

Compartilhe...Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on LinkedInEmail this to someone

O MAGO DAS FINANÇAS

Sócio de “Lulinha” fechou negócio com a Vivo após acompanhar Lula na Espanha

“O Kalil Bittar falou para o Jonas que o ex-presidente iria para a Espanha e que teria uma reunião com a presidência da Telefônica, e que seria falado da ‘Nuvem’ para viabilizar um negócio com a Vivo aqui. E foi o que aconteceu. Não tenho detalhes da reunião, mas ele [Jonas] volta já procurando o [Antônio Carlos] Valente [à época presidente da Telefônica no país]”, disse o ex-executivo do Grupo Gol, de Suassuna, que atua nas áreas editorial e tecnologia e não tem relação com a companhia aérea.

PARCERIA – O anúncio da parceria entre a Editora Gol e a Vivo ocorreu em setembro de 2011, durante a Bienal do Livro. Entre os dias 12 e 17 de abril daquele ano, Lula viajou à Espanha para, entre outros compromissos, quatro eventos com executivos da Telefônica – almoço, jantar, palestra e uma visita à sede da companhia.

Suassuna se encontrou com o ex-presidente na Espanha. Ele assistiu a uma palestra de Lula a funcionários da Telefônica, além de ter visitado ao lado do petista o estádio Santiago Bernabeu, do Real Madrid. Mas nega interferência do petista em favor do negócio.

O empresário é dono de metade do sítio em Atibaia atribuído ao ex-presidente Lula. No terreno de sua propriedade não houve reformas – apenas a instalação de uma cerca– o que fez com que a Procuradoria não o denunciasse no caso. É também sócio de Lulinha na Play TV.

R$ 29 MILHÕES – O acordo permitiu que a “Nuvem”, após três anos de concepção, fosse oferecido aos clientes da Vivo no país. Ela chegou a registrar, de acordo com a empresa de telefonia, 1,4 milhão de usuários. O produto rendeu à editora de Suassuna R$ 29 milhões líquidos. O acordo pela “Nuvem” ocorreu logo após a incorporação da Vivo pela Telefônica.

Em julho de 2010, a espanhola Telefônica comprou os 30% da Vivo que pertenciam à Portugal Telecom, ficando com 60% da empresa de telefonia móvel. Ela comprou o restante das ações no mercado por meio de oferta pública de ações em março de 2011.

Em maio, a incorporação da Vivo pela Telefônica foi anunciada.

MAIS FAVORECIMENTO – Não é a primeira vez que é apontado um ato de Lula que beneficiou Suassuna e a “Nuvem”, um dos principais produtos do Grupo Gol. A Folha revelou em fevereiro do ano passado que uma lei assinada pelo então presidente estimulou a criação do aplicativo.

A lei, de maio de 2010, obrigou todas as instituições de ensino públicas e privadas a possuir, até 2020, pelo menos uma biblioteca com no mínimo um título por aluno. A coleção pode existir “em qualquer suporte”, abrindo margem para bibliotecas virtuais.

Segundo relato de Suassuna, o projeto estava em elaboração três anos antes da sua concretização.

SUASSUNA NEGA – O empresário Jonas Suassuna negou que o ex-presidente tenha interferido no negócio. Ele afirma ter negócios na Espanha desde 1999, tendo inclusive entre seus executivos no país um ex-vice-presidente da Telefônica.

“Por que eu precisava dele? O presidente do meu escritório na Espanha [Luiz Scurra] tinha sido vice-presidente da Telefônica. Tinha todos os acessos”, diz ele.

Nos anos 1990, o grupo de Suassuna vendeu produtos editoriais colecionáveis que intermediava na Europa para vários jornais brasileiros, entre eles a Folha. Ele mantém um contrato ativo com o UOL, empresa do Grupo Folha, que edita a Folha.

“SENTADINHO” – “O fato de ter encontrado com o ex-presidente é porque eu estava lá. O presidente não é meu headhunter. Ele fez uma palestra sobre Brasil para um monte de gente da Telefônica. Eu estava lá, sentadinho como qualquer mortal”, declarou Suassuna.

O empresário disse também que a Vivo ganhou mais de R$ 100 milhões com o produto. Em nota, assessoria de Suassuna afirmou que a as acusações de Marco Aurélio Vitale são “fruto de tentativa frustrada de chantagem junto aos executivos da empresa”.

A Vivo disse, em nota, “que não houve interferência de quem quer que fosse para que a empresa fechasse acordo com a Editora Gol”. A defesa do Lula disse, em nota, que “jamais interferiu em qualquer ato comercial” de sócios de seu filho Fábio Luís Lula da Silva.*

(*) Italo Nogueira – Folha de São Paulo

Compartilhe...Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on LinkedInEmail this to someone

A HORA DA VERDADE

Geddel achava que seria solto quinta-feira e está entrando de novo em pânico

Geddel havia sido preso no dia 3 de julho pela PF no âmbito da Operação Cui Bono?, que investiga suposto esquema de corrupção na Caixa nos anos de 2011 a 2013 –anos em que ocupou o cargo no banco. O depoimento foi concedido em 20 de julho, uma semana depois de o ex-ministro ter sido autorizado pelo Tribunal Regional Federal a deixar a Penitenciária da Papuda para cumprir prisão domiciliar.

VIVIA DO SALÁRIO – No depoimento, Geddel negou ter cometido irregularidades e disse que não recebeu “nenhuma vantagem indevida” por sua atuação no cargo, tendo recebido apenas seu salário no período.

Também negou que tenha passado informações privilegiadas para interlocutores como Cunha e que as informações “eventualmente demandadas” pelo deputado “não alteravam o curso natural das operações de crédito”.

Geddel confirmou que se encontrou com Lúcio Funaro no hangar da empresa Aero Star, em Salvador. Afirmou ter recebido ligação do doleiro, que teria dito que o seu avião estava fazendo uma parada técnica e que queria dar um abraço no então vice-presidente da Caixa.

ABRAÇO EM FUNARO – O ex-ministro saiu de sua casa na praia em Camaçari e foi até o aeroporto de Salvador para “dar um abraço” no doleiro, um trajeto de 23 km feito em cerca de 35 minutos. Geddel diz que os dois conversaram sobre “amenidades”. Em sua delação, Funaro dá outra versão: afirma que o hangar era usado para fazer repasses de dinheiro de propina ao peemedebista.

O ex-ministro afirmou que, naquela ocasião, conheceu Raquel Pitta, mulher de Funaro. Em depoimento à PF, Raquel afirmou que foi pressionada com ligações de Geddel, que a sondava sobre a possibilidade de o doleiro firmar delação premiada.

O peemedebista nega ter feito pressão. E afirmou ainda que encontrou Funaro outras vezes em São Paulo, Brasília e Salvador “circunstancialmente”.

ERA MENTIRA… – Geddel foi questionado ainda sobre a informação de que teria enviado seu assessor Gustavo Ferraz para se encontra em São Paulo com Altair Alves Pinto, assessor de Eduardo Cunha, para buscar remessas de dinheiro.

O peemedebista afirmou que não tinha “nenhuma recordação” de ter enviado um interlocutor de nome “Gustavo” para encontrar Altair.

Preso em setembro após a descoberta de um bunker num apartamento em Salvador com R$ 51 milhões, Gustavo Ferraz, um dos aliados de Geddel, confirmou à polícia que foi a São Paulo buscar dinheiro para o ex-ministro.*

(*) João Pedro Pitombo e Camila Mattoso – Folha de São Paulo

Compartilhe...Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on LinkedInEmail this to someone

MINISTÉRIO DA DESTRUIÇÃO NACIONAL

Temer se curva aos ruralistas e troca multa ambiental por prestação de serviço

O texto modifica o Decreto 6.514 , de 2008, tomando por base a Lei 9.605, de 1998, a chamada Lei de Crimes Ambientais, que já prevê que as multas simples podem ser convertidas em serviços de preservação, melhoria e recuperação da qualidade do meio ambiente.

IMPUNIDADE – Ao detalhar a medida, o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, destacou que as dificuldades no recolhimento das multas ambientais geram um passivo financeiro e uma sensação de impunidade, anulando o poder dissuasório e os benefícios ambientais.

A União, segundo o ministro, consegue arrecadar apenas 5% do total das multas aplicadas. E são os pequenos infratores que as pagam, enquanto os demais recorrem à Justiça para evitar a cobrança.

“É importante ressaltar que a conversão não implica em anistia de multas, já que a obrigação de pagar é substituída pela prestação de serviços ambientais. Tampouco significa renúncia fiscal”, destacou o ministro, afirmando que um levantamento dos infratores interessados em aderir à iniciativa já está sendo feito. Durante a cerimônia de assinatura do decreto, Petrobras e Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) assinaram protocolo de intenções de adesão.

SEM PUNIÇÃO – “Essas multas têm por objetivo dissuadir e punir a prática de ações lesivas ao meio ambiente. Mais do que a arrecadação de valores decorrente deste tipo de sanção, é de interesse fundamental que os recursos sejam efetivamente revertidos em melhorias da qualidade ambiental. O governo está empenhado em conseguir um melhor aproveitamento das multas”, disse o ministro. Ele afirmou que a iniciativa “muda o paradigma do meio ambiente no Brasil”..

“O Ibama deixa de ser um órgão somente fiscalizador, somente de punição, e passa a ser um órgão que vai atuar efetivamente com recursos, com planejamento, na recuperação [ambiental] e no desenvolvimento sustentável”, acrescentou Sarney Filho.

O decreto estabelece que o autuado interessado em converter uma multa deverá se responsabilizar por todos os serviços necessários para recuperar uma área degradada definida pelo Ibama.

ALTERNATIVA – A proposta prevê como alternativa a execução indireta dos serviços, quando o autuado destina parte do valor da multa para que o Poder Público os empregue em serviços de recuperação ambiental de projetos interesse público definidos pelo Ibama ou pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Nesses casos, os autuados obterão descontos no valor inicial da multa.

Ao assinar o decreto, o presidente Temer afirmou que “este é um momento importantíssimo para o meio ambiente em nosso país”. O presidente se referia a indicadores como a redução de 16% no desmatamento da Amazônia entre agosto de 2016 e julho de 2017 e a ampliação do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás.

“Fizemos pelo meio ambiente muito mais em 16 meses que, acho, em 13 ou 14 anos […] O meio ambiente é um compromisso do governo brasileiro e vem sendo levado adiante”, afirmou Temer antes de garantir que autoridades brasileiras devem cobrar de outros países alguma forma de compensação pela preservação ambiental.

“ESSA COISA…” – “Quando mantivermos contato com estados estrangeiros, vamos cobrar essa coisa da preservação ambiental. Porque os países, de alguma maneira, ao longo do tempo, acabaram destruindo suas reservas ambientais e, agora, exigem que o Brasil mantenha as suas. Acho isso mais do que justo, mas acho que esses países devem pagar por isso”, completou o presidente.

Temer também assinou outros dois decretos e um projeto de lei que trata da destinação de recursos de compensação ambiental para unidades de conservação. Todas as medidas ainda serão enviadas para apreciação do Congresso Nacional.*

(*) Alex Rodrigues – Agência Brasil

Compartilhe...Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on LinkedInEmail this to someone

FIM DE UMA ERA

O fim de um sistema político

A palavra ‘companheiro’, ante a derrocada da esquerda, não tem mais conotação de afeto

RIO — Questão colocada para mim no Twitter: o que responderia sobre o Brasil de hoje, se alguém me perguntasse: “O que é isso, companheiro?” Responderia que isso que estamos vendo é o fim de um sistema político partidário. A própria palavra companheiro, diante da derrocada moral da esquerda, já não tem mais conotação de afeto recíproco, mas de cumplicidade com um projeto desastroso.

Com a decisão do Supremo de entregar para o Congresso a decisão final sobre medidas cautelares, que favorecem as investigações, criou-se, para o sistema agonizante, uma blindagem dentro da blindagem, um upgrade do foro privilegiado. Nada mais distante de que as esperanças despertadas nos últimos anos de que a lei vale para todos. O STF favoreceu a indiferença, de um lado, de outro, a crescente aspiração por um regime autoritário.

Não só diante do fracasso da esquerda, como do próprio curso do mundo, pressinto que uma perspectiva liberal em economia deve prevalecer nos próximos anos. No caso brasileiro, ela aparece junto com uma visão conservadora, numa combinação talvez parecida com as ideias do Partido Republicano nos EUA.

Não há dúvida de que o embate nos últimos anos não se travou apenas em torno das questões econômicas, mas também no plano cultural. Exposições, performances, versões de Machado de Assis para os mais pobres, ocupação ideológica de universidades — tudo isso fermentou também um sentimento defensivo, aspectos defensivos, como os de 64, quando se marchava por Deus, Família e Propriedade.

Mas é uma ilusão supor que o avanço do liberalismo venha precisamente fortalecer o credo religioso e os laços de família, apesar de garantir o direito de propriedade. Digo isso porque, ao contrário do que se pode pensar, a batalha cultural não se dá apenas no contexto da polarização entre esquerda e direita. Muitos dos temas que inquietam as famílias decorrem precisamente do avanço do capitalismo.

O escritor inglês John Gray fez uma avaliação interessante sobre essa hipótese. Segundo ele, na medida em que a economia cresce, os desejos são satisfeitos; a economia não se move apenas para produzir coisas mas também para combater o tédio. É um tipo de economia que não depende apenas da demanda dos consumidores mas cria necessidades. Ela não teme apenas a saturação do mercado de objetos mas também a saturação das experiências.

Como nas sociedades tradicionais, afirma Gray, a virtude não pode passar sem o consolo do vício. No século XXI, sexo e drogas são produzidos por designers. Um gigantesco setor produtivo se volta para aliviar o peso de uma vida de lazer, diz Gray, que cita J. Ballard:

“Restou apenas uma coisa que pode excitar as pessoas. Crime e comportamento transgressor — e com isso quero dizer todas as atividades que não são necessariamente ilegais mas que nos provocam e satisfazem a necessidade de emoções fortes, estimulam e fazem saltar as sinapses amortecidas pelo lazer e a inação.”

Esse papo meu parece estar pra lá de Marrakesh. O que isso tem a ver com o Brasil de hoje, com mais de 13 milhões de desempregados? Considero esse nível de desemprego um dado provisório, assim como é provisório esse sistema político partidário agonizante. Logo, logo, estaremos discutindo os caminhos do futuro. E, no momento, vejo no horizonte apenas alternativas que não respondem à complexidade dos novos tempos. Sou uma espécie de observador nem nem. Só que, diferente dos jovens que nem trabalham nem estudam, não consigo ver saída numa esquerda sepultada no século passado nem na visão liberal que, ao mesmo tempo, queira impor valores abalados com um mundo em transformação.

Não sei se posso responder completamente à pergunta, quando falamos de Brasil de hoje. Creio que é um país em movimento, apenas não posso precisar ainda sua trajetória. Sei apenas que os acontecimentos desta semana, a blindagem de Aécio e nova blindagem de Temer, são muito perigosos. Eles nos remetem a uma tarefa preliminar. Convencer os indiferentes a não abandonarem o barco e, aos adeptos de uma intervenção militar, de que as eleições de 2018 são a grande oportunidade de mudança.

Só então, num contexto de 2018, poderíamos passar à segunda etapa. Em vez de apenas atenuar os choques entre posições extremas, aí teríamos pela frente a produção de um conjunto de ideias do tipo ganha-ganha, dessas que realmente podem unificar um país em reconstrução. Por exemplo: há gente a favor do aborto, gente contra. Por que não se juntam numa campanha de informação contra gravidez indesejada? Ela pode reduzir o problema, sem prejuízo do debate.

Se conseguirmos êxito em alguns temas, poderíamos achar um acordo na educação. Foram anos de bombardeio ideológico. Ele não apenas irrita as famílias mas também escandaliza os especialistas pela sua ineficácia. Num país em que a educação suba ao topo da agenda, teremos de suprimir ilusões de formar revolucionários ou santos de qualquer outra igreja.

O que é isso, como será isso? Para mim, é o enigma de cada dia. Obrigado pela pergunta.*

(*) Fernando Gabeira – O Globo

 

Compartilhe...Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on LinkedInEmail this to someone